Comunicações do ISER Nº 59

Comunicações do ISEREdição Nº 59

A memória das favelas

“Penso na atitude pós moderna como a de um homem que ama uma mulher muito culta e sabe que não pode dizer-lhe “eu te amo desesperadamente”, porque sabe que ela sabe (e ela sabe que ele sabe) que esta frase foi escrita por Liala. Entretanto existe uma solução. Ele poderá dizer: “como diria Liala, eu te amo desesperadamente”. A esta altura, tendo evitado a falsa inocência, tendo dito claramente que não se pode falar de amor de forma inocente, ele teria dito à mulher o que queria dizer: que a ama em uma época de inocência perdida. Se a mulher entrou no jogo, terá igualmente recebido uma declaração de amor. Nenhum dos dois interlocutores se sentirá inocente, ambos terão aceito o desafio do passado, do que já foi dito que não se pode eliminar, ambos jogarão conscientemente e com prazer o jogo da ironia… Mas ambos terão conseguido mais uma vez falar de amor.” (Humberto Eco no Posfácio ao Nome da Rosa).

Vivendo nos tempos de hoje, não se pode falar em favela de uma forma inocente. Para falar em favela, não há como ignorar a própria história da ocupação do espaço no Rio de Janeiro. O mosaico das desigualdades sociais expressas na cartografia da cidade é resultado de disputas e de interesses econômicos, sociais e políticos. Processos sociais excludentes restringiram trânsitos e acessos, dividiram a cidade e os cidadãos. Parafraseando Humberto Eco, acima citado, falar em favela hoje “significa aceitar o desafio do passado, do que já foi dito (e feito) e que não se pode eliminar”. Na bela paisagem carioca, proximidades físicas e grandes distâncias sociais informam a oposição complementar entre asfalto e favela. Desta história de preconceitos e discriminações fazem parte políticas assistencialistas e políticos populistas. Fazem parte as remoções e as resistências. Convivem a idealização e a criminalização, as ambigüidades e ambivalências de sentimentos. Ou seja, de fato, não se pode falar de favela de uma forma inocente.

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