O que é racismo climático? 

Em nosso último texto sobre as enchentes e mobilizações para o enfrentamento aos desastres climáticos, discutimos sobre as condições naturais e sociais que influenciam no impacto dessas chuvas às populações mais vulneráveis. Essa população mais afetada não é composta por pessoas brancas e ricas do país, ao contrário, é , em sua maioria, negra, indígena e pobre (1). Essa relação resume-se em um termo que está sendo cada vez mais utilizado e que queremos desenvolver aqui um pouco, o racismo climático.  

O racismo climático é um termo que na teoria é novo, mas na prática de quem vive nesse contexto de desastres causados pelos eventos climáticos, ele é um termo muito presente na vivência dessas pessoas. Esse conceito também está relacionado com a injustiça climática, que é usada para identificar essa população e grupo de pessoas que menos cooperam com essa crise climática mas são os mais afetados por ela. Segundo Karina Penha, que é bióloga, ativista climática e mobilizadora do Nossas e parte do Fé no Clima,  “quando a gente olha para essa realidade, mesmo com a escassez de dados relacionados às categorias de raça e cor, a gente sabe que as pessoas mais afetadas são aquelas que vivem em regiões periféricas. Existe uma dificuldade de transparência e acesso a dados que racializem essa análise sobre os impactos, o que dificulta saber sobre essas pessoas.” 

Segundo ela, quando existe um estudo de impacto sobre o local, com a escuta dos relatos de pessoas que vivem nos territórios atingidos, é possível observar que as pessoas mais afetadas são as pessoas negras. Além disso, nas áreas com populações tradicionais como os quilombos, aldeias indígenas e reservas extrativistas existe uma subnotificação dos dados e poucos estudos aprofundando o tema. Karina também coloca que essa discriminação pode ser regional, pois quando acontece no Norte e Nordeste, regiões onde a população negra é maioria, não existe tanta comoção e visibilidade como em outras regiões do país. A falta de mobilização por essa causa reflete a discriminação e naturalização desse racismo.

Nos centros urbanos também é possível perceber essa diferença dos impactos ambientais; em casos de alagamento e deslizamento de encostas causados pelo grande volume de chuva, as favelas e bairros periféricos que possuem a população majoritariamente negra, sempre são afetados de forma mais grave. A falta de saneamento básico e outros direitos que são negados a essa população dificulta ainda mais o enfrentamento da crise climática nesses territórios.

Karina também aponta que existe um descaso público em relação ao planejamento específico de obras para redução dos riscos e formas de adaptação para a proteção dessas populações. O poder público tem o conhecimento que determinadas regiões estão mais vulneráveis à eventos extremos, como a elevação do nível do mar, as cheias dos rios, as estiagens, mas ainda não existe uma ação pública que atue prontamente no auxílio e suporte às famílias impactadas. 

O racismo ambiental também é um termo utilizado para identificar desigualdades raciais no acesso à justiça ambiental. Essa categoria abarca além dos eventos climáticos, os crimes ambientais, como foi o caso de Mariana (2) e de outras barragens de mineradoras (3). A importância de se trazer o tema do racismo climático é aproximar a questão racial para o debate das mudanças climáticas que sempre foi abordado de forma técnica e pouco social. Na COP 26, que aconteceu em novembro de 2021, houve um avanço nessa discussão com a participação da Coalizão Negra por Direitos que ressaltou a titulação de terras quilombolas como uma política de desmatamento zero e de controle do aquecimento global (4)

Cada vez mais o racismo climático está ficando em evidência, mas temos um grande trabalho de pautar essas injustiças nos ambientes que ocupamos. Precisamos comunicar e circular mais informações sobre essa abordagem que reivindica que a garantia do direito ao meio ambiente saudável para todos os cidadãos seja respeitado, e não só para aqueles que historicamente possuem privilégios e alto poder aquisitivo.

 Julia Rossi – pesquisadora do Fé no Clima

1 – https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/racismo-ambiental-comunidades-negras-e-pobres-sao-mais-afetadas-por-crise-climatica/#cover

2 – http://www.global.org.br/blog/racismo-ambiental-no-desastre-em-mariana/

3 – https://racismoambiental.net.br/2022/01/28/ultimo-relatorio-de-seguranca-de-barragens-aponta-falta-fiscalizacao-e-informacoes-basicas-sobre-os-riscos-da-maior-parte-das-barragens-brasileiras/

4 – https://coalizaonegrapordireitos.org.br/category/cop26/

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Publicado em: 09/02/2022 - #Fé no Clima