Baixada Fluminense, Saneamento e Mudanças climáticas – pauta urgente para construção de cidades mais resilientes e sustentáveis.

Faz uma semana que fortes chuvas atingiram o Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense a situação ficou ainda mais grave com os alagamentos que fizeram famílias perderem seus bens como camas, eletrodomésticos, e ficarem sem acesso à água e alimentos. Neste ano, já trouxemos aqui dois textos sobre as enchentes ocorridas no Brasil e sua relação com a crise climática, e não podemos deixar de pontuar o quão frequente esses eventos estão ocorrendo. 

Estudos compilados pelo Climate Central mostram que as inundações vão se agravar em municípios da Baixada nas próximas três décadas, ampliando a área atingida e afetando milhões de pessoas. 

Diego de Castro, geógrafo, pesquisador e cria da Baixada Fluminense, explica que a crise socioambiental dessa região nos dias de hoje é um exemplo claro da crise climática. 

“Se tirarmos as mudanças do clima e também os eventos extremos por ela gerados da equação, a região já se encontraria em situação de alta vulnerabilidade, visto que seus sistemas ambientais e infraestruturas urbanas encontram-se todos em um nível de pressão limite onde qualquer chuva acima da média é o estopim de um cenário caótico. O quadro de crise socioambiental que se desenha é parte de um processo com razões históricas.”

Segundo ele, a região da Baixada possui características que propiciam enchentes, já que sua paisagem era marcada pela ocorrência de extensas planícies de inundação, caminho natural dos rios que vinham das áreas mais elevadas da Serra do Mar para desaguar na Baía de Guanabara. “Nesse sentido, falamos de um território que tem a ocorrência de inundações como parte da dinâmica de sua paisagem.”

Essa paisagem foi ocupada e transformada historicamente e a geografia dessa região, junto com a ausência de políticas públicas, construíram um cenário suscetível à eventos climáticos extremos:

“Seus brejos, córregos e regiões alagadas de maneira geral foram aterrados, retilinizados e dissecados, sendo tratados como um obstáculo a ser superado no processo de ocupação dessas cidades e não como um meio garantidor de uma qualidade de vida adequada. Tendo como marca o desamparo e omissão por parte do Estado que sem planejamento, permitiu a densa ocupação das áreas suscetíveis a alagamentos sendo muitas vezes o responsável por realizar essas intervenções que nos dias de hoje amplificam a suscetibilidade dos municípios da região à ocorrência dessas enchentes.”

Sobre a falta de planejamento urbano e políticas pública, Diego destaca que a Baixada Fluminense convive com um déficit histórico de saneamento básico, e possui três cidades entre as vinte piores do país no que diz respeito à qualidade de seus serviços de saneamento, são elas Belford Roxo (82º)¹, São João de Meriti (87°) e Duque de Caxias (90°),e na 74a posição encontra-se a cidade de Nova Iguaçu. 

A implementação de obras de saneamento é fundamental para o enfrentamento da crise climática, ainda mais nessas regiões mais vulneráveis. “A coleta e disposição ineficaz de lixo tem papel na obstrução da infra estruturas de escoamento das águas e, por consequência, seus rios, que aliado ao esgoto despejado sem nenhum tratamento gera em eventos de chuvas extremas inundações que além de prejuízos econômicos, podem gerar mortes e diversas doenças associadas às condições inadequadas de saneamento.”

Diego também aponta a necessidade de identificar as áreas mais críticas e criar planos estruturados de mitigação destes impactos, tanto em escala local nos municípios, quanto regional visto que estas cidades compartilham entre si bacias hidrográficas e rios não existindo uma solução que possa ser pensada de maneira separada. Além disso, é preciso investir na construção de um caminho direcionado a atingir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, pauta urgente para construção de cidades mais resilientes e sustentáveis.

Julia Rossi entrevista Diego Castro.

 

1:Ranking do setor disponibilizado bianualmente pelo Instituto Trata Brasil (com dados do Sistema Nacional de Informações Sobre Saneamento). O ranking leva em consideração as maiores cidades do país, acima de 100 mil habitantes.

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Publicado em: 08/04/2022 - #Fé no Clima