A enchentes no Brasil e o papel da sociedade e comunidades fé no enfrentamento da crise climática

O ano de 2021 terminou com tragédias causadas pelas chuvas que continuam nesse começo do mês de janeiro, quando milhares de famílias pelo Brasil foram afetadas em diferentes municípios dos estados da Bahia [1], Minas Gerais [2], Tocantins [3] , Acre [4] e Maranhão[5]. Esses eventos extremos decorrentes do grande volume de chuvas são cada vez mais frequentes [6] em função do aquecimento na temperatura do planeta e são sentidos com mais intensidade no período de verão.  

Segundo especialistas ouvidos pela reportagem da BBC [7], “há pelo menos três fatores que podem ser associados à alta intensidade das chuvas recentes na Bahia: o La Niña, a depressão subtropical e o aquecimento global.” Tanto a La Ninã como a depressão subtropical são fenômenos naturais que interferem no regime e volume das chuvas como ciclones e ventos com alta intensidade. Já o aquecimento global, como sabemos, é um fenômeno causado pelas atividades humanas que emitem gases de efeito estufa, de acordo com o  Relatório Internacional sobre as Mudanças Climáticas (IPPC)[8]

Os impactos dessas mudanças no clima têm efeito direto nas populações que vivem em áreas de risco. A pesquisadora e ativista Aíla[9], de Itabuna (BA), afirma que as enchentes na Bahia são eventos que se repetem por todo país, e segundo ela, isso envolve a falta de planejamento urbano que refletiu na construção das cidades brasileiras à margem de grandes rios. O volume de água dos rios que cortam as cidades aumenta e invade as cidades. Ela conta que o Rio de Itabuna subiu uma altura de 10 metros.

Durante esses desastres foram fundamentais as ações comunitárias para dar assistência às famílias atingidas pelas enchentes e que perderam seus bens nas enchentes. Aíla se reuniu com outras pessoas para angariar doações e conseguir comprar absorvente e calcinhas, pois a saúde da mulher fica esquecida diante de tantas outras necessidades emergentes. Segundo ela, “a sociedade civil foi a protagonista na ajuda para pessoas afetadas em todas as esferas. As campanhas de arrecadação de mantimentos, roupas, itens de higiene e etc, foram desenvolvidas pela própria comunidade. A própria comunidade que se engajou enquanto o poder público se colocou em uma posição de pensar o que seria feito no pós desastre e como direcionar esses recursos recebidos pela prefeitura para o restabelecimento de famílias desabrigadas.” 

Bispos de dioceses atingidas pelas enchentes no sul da Bahia participaram de ações solidárias para o enfrentamento dessas situações de calamidade. Para além do acolhimento e socorro prestado, a Igreja tem alimentado a esperança e a fé das pessoas atingidas por esta catástrofe [10]. 

A jovem ativista Hamangaí [11] Pataxó HãHãHãe, que também mora no sul da Bahia, conta como seu povo lida com esses eventos climáticos: 

“Antigamente os mais velhos aqui da minha aldeia tinham o entendimento que com os territórios demarcados os problemas iria acabar e viver mais tranquilos. Agora a gente entra em um contexto de crise hídrica cada vez mais intensa, fruto de ações de antigos fazendeiros aqui da região com a agropecuária e a produção de cacau. Temos feito um trabalho de “formiguinha” de reflorestamento, fortalecendo o trabalho da educação ambiental e trazendo as árvores nativas para “plantar água”, pois vamos plantando nas beiras das nascentes e nos leitos dos rios.” 

Segundo ela, o território pataxó HãHãHãe tem muita dificuldade de acesso à água potável, um direito básico que é negado, assim como a educação e a saúde indígena, e outras formas de extinguir os direitos dos indígenas como a PL 490, o marco temporal. Hamangaí explica “por isso a importância de que a sociedade civil esteja articulada, unida e consciente desse trabalho em rede que deve ser feito para pressionar o governo a cumprir o que está na Constituição Federal e tomar medidas emergenciais nesse contexto de crise.” 

Hamangaí também comenta sobre as decisões políticas serem feitas a portas fechadas, acordos que são negociados sem ouvir de fato a população, quem está na base, dentro dos territórios mais afetados. Ela também aponta para a urgência de se discutir essas questões dentro da sala de aula, pautando a educação climática como um aprofundamento desse tema das mudanças climáticas.  

Trouxemos aqui alguns exemplos de ações que têm sido construídas pela sociedade civil no Brasil, mas não podemos deixar de pontuar também a obrigação dos governos, em todas as suas esferas, de implementar políticas que protejam as populações mais impactadas pelas mudanças climáticas.

[9] Pesquisadora sobre clima e juventude na UFBA, tem mestrado em Relações Internacionais e trabalha no Instituto Aika.

[11] Articuladora nacional da associação de jovens Engajamundo, é estudante universitária do curso de medicina veterinária pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

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Publicado em: 19/01/2022 - #Fé no Clima