ISER lança Cartografias da Ditadura

Comprometido com o Estado democrático de direito, o Instituto de Estudos da Religião desenvolve, desde 2011, o projeto Memória, Verdade e Justiça, através do qual monitora os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, mantém a Revista VJM e se articula com outros movimentos para a construção de perspectivas que garantam os direitos à memória, à verdade e à justiça. No âmbito do calendário de “descomemorações” dos 50 anos do golpe militar, o ISER iniciou o mapeamento de lugares atravessados por memórias relacionadas à repressão e à resistência no estado do Rio de Janeiro. Trata-se da Cartografias da Ditadura, uma plataforma colaborativa, de software livre, que foi lançada no dia 26 de março.

Os lugares mapeados pela Cartografias da Ditadura estão distribuídos em seis filtros: (1) aparelhos (locais destinados a reuniões de um grupo político clandestino, guarda de material, esconderijo ou moradia de seus membros); (2) atentados (locais onde foram realizadas ações por indivíduos ou grupos associados direta ou indiretamente ao aparato militar com o objetivo agredir os adversários da ditadura ou criar um clima de instabilidade política que permitisse a radicalização das formas da repressão); (3) espaços de homenagem (espaços públicos que fazem referência, no presente, a agentes ou acontecimentos do período da ditadura); (4) manifestações (lugares públicos onde aconteceram distintas manifestações de contestação à ditadura); (5) mortos e desaparecidos (lugares, públicos e privados, abertos e fechados, relacionados às mortes e desaparecimentos de opositores à ditadura provocados pelo Estado); e (6) prisão e tortura (espaços, oficiais e clandestinos, onde ocorreram práticas de tortura e opositores da ditadura foram mantidos presos). Com base nessas categorias, foram mapeados 50 lugares, todos com uma breve descrição, sendo que cinco desses locais possuem um arquivo disponível para download com informações mais detalhadas e fotos.

O recorte inicial desse mapeamento é a cidade do Rio de Janeiro, o qual será expandido para o estado do Rio. A proposta é que essa plataforma seja uma construção coletiva, aberta às contribuições de pesquisadores, ativistas, ex-presos políticos, todos que tenham algum conteúdo sobre a ditadura. É possível colaborar com a cartografia através do compartilhamento de experiências ou informações relacionadas aos lugares já mapeados ou de lugares ainda não mapeados que sejam condizentes aos filtros sugeridos. Em ambos os casos, é preciso preencher um dos formulários disponíveis no site e enviá-lo para os administradores da plataforma por e-mail.

“O mapa é um instrumento fundamental para disputar território. Um exemplo disso é a eliminação de algumas favelas dos mapas do Rio. A partir dessa compreensão, queremos que a Cartografias da Ditadura seja a expressão de outros sentidos acerca dos espaços da cidade. É uma ferramenta de valor pedagógico que objetiva fomentar a conexão entre as lutas e as violações do passado e do presente, bem como transmitir para as gerações de hoje e para as próximas o absurdo da violência institucional.”, explica Tiago Régis, pesquisador do ISER e um dos responsáveis pelo projeto da Cartografias da Ditadura.

No lançamento da Cartografias da Ditadura, após ter sido apresentada a plataforma, houve um debate com os professores José Maria Gomez, do Instituto de Relações Internacionais da PUC-RJ, e Luiz Antônio Baptista, da pós-graduação em Psicologia da UFF. José Maria colocou a importância da memória das vítimas da ditadura na produção de conhecimento, sendo um princípio para a verdade e justiça. Para que a justiça seja feita, segundo o professor, é preciso um trabalho de memória, individual e coletivo, uma luta contra o esquecimento, tal como a ação da Cartografias da Ditadura. Em alusão a Theodor Adorno, filósofo da Escola de Frankurt, ele defende a necessidade de se repensar a política, a verdade, a ética, ação, para que nunca mais se repita. Costurando, outros episódios da história do Rio de Janeiro, como a chegada dos combatentes da Guerra de Canudos, a ditadura e atualidade, o professor Luiz Antônio sustenta que a política de memória da cidade é, historicamente, a do desprezo pela memória, anulando quem não interessa para o Estado.

Tiago Régis (pesquisador do ISER, José Maria Gomez (professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-RJ), e Luiz Antônio Baptista (professor da pós-graduação em Psicologia da UFF)
Tiago Régis (pesquisador do ISER, José Maria Gomez (professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-RJ), e Luiz Antônio Baptista (professor da pós-graduação em Psicologia da UFF)

Entendendo a memória enquanto um campo de disputas, a Cartografias da Ditadura vai de encontro a essa política do esquecimento. A plataforma se propõe a evidenciar a luta dos movimentos sociais pela disputa concreta e simbólica dos espaços da cidade, a reapresentar a memória de maneira que seja reconhecida a necessidade de mudança, no âmbito das políticas públicas, e a colocar em pauta diferentes motivos para recordar.

 

Publicado em: 01/04/2014 - #Destaques #Notas