O ISER
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O Instituto de Estudos da Religião é uma organização da sociedade civil comprometida e dedicada à causa dos direitos humanos e da democracia. Sua trajetória de 40 anos é marcada por mudanças e adaptações a cada tempo, sem que sejam alterados a essência e o perfil da instituição, identificados de forma contínua com seu caráter inovador, agregador e crítico. Afirmado pela qualidade de suas pesquisas, estudos e publicações, o ISER desenvolveu a habilidade de promover o diálogo entre linguagens oriundas dos movimentos sociais, academia e políticas públicas. Nesse sentido, o ISER aposta na pluralidade e na convivência como mecanismos próprios à construção de cidadania e solidariedade.
As origens do ISER estão relacionadas à trajetória do ISET (Instituto Superior de Estudos Teológicos), fundado em Campinas, São Paulo, em 1970. Com o apoio do Conselho Mundial de Igrejas, o ISET organizou-se na ocasião como uma rede composta por pesquisadores, cientistas e estudiosos, que compartilhavam o interesse em desenvolver investigações que associassem questões religiosas a temas da ordem da cultura. Durante dez anos, o ISET funcionou como um movimento social de bases informais. Dessa forma, apesar de já contar com sistema de comunicação bastante ágil e um intenso comprometimento político por parte de seus atores, a rede não possuía ainda uma caracterização legal, uma sede, uma agenda institucional fixa ou um corpo de assessores.
Em 1973, todavia, as reflexões que estiveram na origem do ISET são ampliadas e, por consequência, a missão institucional inicial da rede é redefinida. No lugar de se promover a associação entre religião e cultura, o objetivo passa a ser o de “promover estudos no campo da moral, da educação, da cultura e da religião”. Paralelamente, nesse mesmo ano, o movimento se aproxima de pesquisadores da religião ligados a universidades brasileiras. É nesse contexto que a sigla ISET dá lugar ao nome ISER – Instituto de Estudos da Religião –, mais adequado às novas missões do movimento.
A produção teórica dos membros da rede era editada no Cadernos do ISER, periódico criado por iniciativa dos próprios militantes, com o objetivo de incrementar e estimular o debate das abordagens teóricas da questão religiosa nas ciências sociais brasileiras. A despeito da dimensão de ousadia de uma publicação ligada a uma rede informal de pesquisadores e estudiosos, Cadernos do ISER atinge grande aceitação pública e acadêmica, atestando a necessidade da ampliação do tipo de debate a que a publicação veiculava.
Em 1977, com a criação da revista Religião e Sociedade, o ISER incrementa suas publicações. Sob o formato de revista científica, com acabamento gráfico de qualidade, capa dura e duzentas páginas por edição, a revista se torna referência teórica importante para pesquisadores e estudiosos das ciências sociais e da religião no Brasil. Pouco mais tarde, Religião e Sociedade figura entre os periódicos acadêmicos mais importantes do país, consolidando-se como referência nacional para a articulação entre os temas religiosos e a antropologia, as ciências políticas, a sociologia, a educação e a cultura.
Em 1979, o ISER se transfere de Campinas para o Rio de Janeiro. Já no ano seguinte, adquire a condição de organização social pública com composição jurídica definida. Nesse mesmo ano de 1980, o ISER passa a contar com uma sede, um arranjo físico e funcional, e a definir-se como um centro de produção de estudos, pesquisas e ações sociais orientadas pelos princípios religiosos que estão na origem da instituição.
Nesse momento, a sociedade brasileira, submetida ao regime militar, vive intensamente as necessidades de fortalecimento da sociedade civil, democratização e ação social efetiva. Apoiando-se no elo entre religião e movimentos sociais, o ISER expande seu espectro de atuação para o espaço das ações e projetos de intervenção social. Nesse sentido, os estudos teóricos e metodológicos desenvolvidos pela instituição passam a subsidiar os trabalhos de assessoria e especialização dos movimentos sociais.
Em 1984, os estatutos do ISER são redefinidos. Os objetivos passam a ser “promoção de estudos, conferências, seminários, publicações e assessoria no campo da cultura, especialmente em seus aspectos religiosos”.
Entre 1985 e 1990, a instituição vive uma grande expansão de suas atividades. Nesse período, o ISER atrai para sua órbita de projetos e ações uma nova geração de militantes, estudiosos e pesquisadores de diferentes frentes de atuação, usualmente ligadas ao trabalho contra a discriminação, o preconceito e a desigualdade econômica e social.
Nesse período, o ISER assume a condição de Organização Não-Governamental de grande porte, cuja relevância política adquire reconhecimento internacional. Os planos de trabalho da instituição, que a essa altura conta com cerca de 120 funcionários, aliam múltiplas parcerias de agencias de cooperação, sindicatos, universidades, igrejas e entidades congêneres. Simultaneamente, as atividades editoriais desdobram-se em novas publicações: além dos Cadernos do ISER e da revista Religião e Sociedade, são lançados dois jornais , Beijo da Rua e Vermelho e Branco. Ainda nessa época, o ISER vive a implantação de um setor de comunicação, que se especializa na produção de filmes documentários, vídeos educacionais e programas de TV comunitários, a TV ZERO, a qual mais tarde se torna autônoma.
A década de 1990 é marcada por uma constante avaliação e revisão de propostas e projetos da instituição. À luz dessa política, é instaurado no ISER um debate interno, que se designou instituinte. É a partir do debate instituinte que o ISER empreenderá nesse período uma ampla releitura das suas práticas de trabalho. Dessa forma, inaugura-se uma profunda reflexão sobre a história da instituição, com destaque para as ações de combate à discriminação e ao preconceito e de fomento da justiça social.
O produto dessa revisão crítica é um novo organograma, um novo modelo de gerência, apoiado na idéia de participação democrática dos integrantes da instituição, com vistas à harmonização de todos os aspectos do trabalho e da produção cientifica ligada ao ISER. Para atender a essa nova lógica, são criadas uma Assembléia Geral integrada por cento e vinte membros, uma diretoria executiva composta por sete coordenadores e uma secretaria executiva, cuja atuação se dava em conjunto com um conselho administrativo. Ainda no bojo desse processo, a instituição viveu a consolidação dos núcleos de comunicação, pesquisa e documentação, além da instauração de três áreas temáticas de trabalho: Religião e Cidadania, Marginalidade e Auto-estima, Tradições e Etnias.
Ao longo de sua história, o ISER esteve sempre sensível às necessidades sociais fundamentais de cada período. De modo que, a partir da década de 1990, as questões ambientais assumem a condição de prioridade na agenda institucional. Nesse sentido, durante a ECO 92, a instituição organiza a Grande Vigília pela Paz Mundial, que reuniu lideranças de diversos credos e ideologias, que defenderam a relevância de um amplo debate de teor ambiental. Ainda nesse período, o ISER participou ativamente da definição da AGENDA 21 como modelo de política pública internacional no que se refere à preservação ambiental.
A essa altura de sua história, o ISER acumula uma experiência vasta e duradoura na articulação de diversas frentes de trabalho vinculadas a questões variadas, bem como na geração de conhecimentos úteis a intervenções com vistas ao bem estar social. É de posse dessa bagagem que, em 1993, a instituição desempenha um papel fundamental no processo de criação do Movimento VIVA RIO, nascido e desenvolvido no próprio espaço institucional do ISER.
Também nessa época, a instituição acompanha o desenvolvimento de uma série de outros movimentos sociais voltados para o combate ao racismo, para os direitos humanos, para a defesa das mulheres, dos meninos de rua e da ecologia. Esses movimentos seguiram posteriormente seus próprios caminhos, consolidando-se como novas ONGs.
Sobretudo quando pensada com o distanciamento histórico atual, a participação do ISER no processo de desenvolvimento de outras organizações confirma o cumprimento da uma das missões primordiais da instituição, a de fortalecer a sociedade civil, por meio da organização de demandas e interesses que garantam a diversidade, a tolerância e a mitigação das aflições causadas pelas desigualdades sociais e pela pobreza.
Hoje, as atividades desenvolvidas pelo ISER são orientadas pelos eixos temáticos Religião e Espaço Público, Sociedade e Relações Sustentáveis e Violência, Segurança Publica e Gestão de Conflitos. A esses temas, somam-se outros, de natureza transversal, interdisciplinar, como gênero, juventude e mediação. É sobretudo a partir desses eixos e cruzamentos temáticos que a instituição organiza suas linhas de atuação, definidas como atividades que, de maneira geral, visam à produção de conhecimento, ao desenvolvimento de projetos estratégicos e à avaliação e monitoramento de políticas públicas.