O ‘padrão Fifa’, os megaeventos e a política no Rio de Janeiro

English version

 

  • Pedro Strozenberg e André  Rodrigues

Pedro Strozenberg é secretário executivo do ISER e membro do conselho da Casa Fluminense.
André  Rodrigues é cientista político, pesquisador associado do ISER

No dia 12 de junho de 2014, a bola rola nos gramados da Copa do Mundo Fifa. No campo da política, entretanto, a bola já está rolando desde o ano de 2007, quando o Brasil – candidato único, foi anunciado como país sede desse megaevento. No principal torneio de futebol – o esporte mais popular do mundo –, o que acontecerá entre as quatro linhas será só um detalhe sobre o pano de fundo das tensões e contradições que estão em jogo fora dos campos.

A dimensão do espetáculo, do evento, se sobrepõe ao esporte, aos seus adeptos, apreciadores e torcedores.

A magnitude do megaevento é definidora de um cenário no qual grandes intervenções sociais e urbanas são levadas a cabo em um curto espaço de tempo impondo custos sociais, políticos e econômicos. O discurso publicitário, de um lado, mobilizado, tanto pelos órgãos governamentais como pelos operadores e investidores privados (os meios de comunicação aí inclusos), saúda os legados positivos e retornos da Copa do Mundo para o desenvolvimento da nação e das cidades, com ênfase nos investimentos de infraestrutura. Em contrapartida, os movimentos sociais destacam os descompassos no processo de transformação das cidades e de legados perversos da Copa. Figuram entre as preocupações desse campo questões como: o uso excessivo do dinheiro público para o financiamento de um evento privado e o manejo corrupto desses investimentos; os impactos sociais traumáticos como as remoções; o aumento exacerbado no custo de vida; e o emprego arbitrário e violento das forças de segurança pública para a garantia da ordem (nem sempre da lei).

Até o momento, mais de R$ 25 bilhões em verbas públicas já foram desembolsados.[1] Estudos indicam que o investimento público na Copa foi responsável por arcar com cerca de 80% dos custos do evento.[2] Um dos fatores propulsores desse dimensionamento dos investimentos foi a variação entre os custos previstos e os realizados. As obras de adequação do Maracanã ao ‘padrão Fifa’, por exemplo, variaram na ordem de 69% a mais do que o inicialmente orçado.[3] Quanto mais os prazos se acirravam para a entrega das obras, menor foi o controle público na aplicação dos recursos.

Para além dos problemas de ordem econômica, essas intervenções urbanas trazem grandes impactos sociais e políticos. As obras de infraestrutura e de reforma dos estádios e de seus arredores afetam drasticamente – e, em muitos casos, traumaticamente – as pessoas que vivem nas rotas dessas intervenções. As remoções de moradores das áreas afetadas representam um aspecto no qual o estado se afina mais pelo diapasão dos interesses privados do que por seu compromisso com a coisa pública. Os processos de remoção foram, em geral, executados através da força, sem canais de diálogo e escuta do interesse público, e sem articulação com políticas de habitação suficientes. O caso da Aldeia Maracanã, comunidade indígena que vivia no prédio centenário abandonado (pelo poder público) do antigo Museu do Índio, nos arredores do estádio do Maracanã, foi emblemático dessa postura. Os indígenas resistiram à ordem de remoção, houve grande mobilização pública, por parte dos movimentos sociais e de alguns parlamentares, e, ao fim, eles foram retirados à força. O prédio agora é ocupado per guarnições policiais que vigiam o local dia e noite para evitar que o grupo resistente retorne. Neste mesmo exemplo, é possível mencionar o Estádio de Atletismo Célio de Barros, o Parque Aquático Júlio de Lamare e a Escola Municipal Friedenreich, imóveis que fazem parte do Complexo Maracanã e estavam ameaçados de demolição, para dar espaço a estacionamentos, prédios e até um shopping center, dentro do projeto de concessão à iniciativa privada do Estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã, e de acordo com o projeto Fifa.  No Rio de Janeiro, as mobilizações em apoio à Aldeia Maracanã e à preservação do entorno dos imóveis do Maracanã se tornaram símbolos de uma crítica ao modelo de cidade em disputa e também ao modelo de intervencionista da Fifa, potencializaram, juntamente com os temas de transparência, mobilidade urbana e da violência policial, uma série de protestos, manifestações e movimentos reivindicatórios que ganharam fôlego, desde junho de 2013, período que ficou conhecido como Jornadas de Junho. As contradições do contexto de organização e realização da Copa do Mundo têm motivado diversos protestos Brasil afora. A resposta do Estado a essas manifestações tem obedecido a um padrão repressivo no qual o uso da força se afasta com frequência de parâmetros proporcionais e orientados pelas prerrogativas da ação policial em contextos democráticos. A população e os movimentos sociais têm resistido e se posicionado criticamente, mas o Estado abre poucos canais de participação e diálogo para a busca de soluções democráticas e legítimas. Ao preconizar o emprego reativo e repressivo dos meios de força, e ao se distanciar dos canais de escuta e incidência do interesse público para lidar com o conflito, o Estado brasileiro também se afasta das premissas da democracia. Discursos de cidadania e direitos são substituídos pela lógica do controle e punição. Propostas legislativas de proibição de uso de bonés e máscaras surgem em contextos polarizados e amedrontados.

O desequilíbrio entre os interesses públicos e privados no contexto da Copa do Mundo é, talvez, o aspecto mais sensível desse cenário e também a questão mais grave do ponto de vista político. O ‘padrão Fifa’ postula parâmetros de adaptação das cidades e das estruturas esportivas que demandam intervenções de custos altíssimos e que produzem um abismo entre o esporte e o espetáculo. Câmbios semânticos sutis são reveladores dessa operação: as ‘cidades’ passam a ser ‘cidades-sede’, os ‘estádios’ passam a ser ‘arenas’. Os tempos em que a Copa do Mundo se tornou muito mais do que um torneio de futebol são, portanto, tempos em que os megaeventos põem em cena uma grande tensão entre o poder econômico privado e a garantia do bem público em termos democráticos.

Há quase 20 anos , em 1996, o Ibase e a Ação da Cidadania, sob a liderança saudosa do Betinho, traziam, em discurso firme e audacioso, a importância de uma Agenda Social participativa e transformadora, cujo principal propósito era a superação da miséria e da desigualdade. Fica a sensação de que demos um passo atrás e o povo brasileiro assistirá à Copa como um convidado em sua própria casa.

 


[1] Dados retirados do Portal da Transparência do governo federal (http://www.portaltransparencia.gov.br/copa2014/empreendimentos/investimentos.seam?menu=2&assunto=tema, acessado em 4 de junho de 2014).

[2] Ver PAULA, Marilene de; BERTELT, Dawid Danilo (orgs.). (2014), Copa pra quem e para quê? Um olhar sobre os legados dos mundiais de futebol no Brasil, África do Sul e Alemanha. Rio de Janeiro, Fundação Heinrich Böll.

[3] Ver, por exemplo: http://esportes.terra.com.br/futebol/com-custo-69-maior-do-que-estimado-maracana-bate-r-1192-bilhao,1290c494f7200410VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html, acessado em 4 de junho de 2014.