Um presente de Deus

  • Liza G. Steele

é doutoranda (“PhD Candidate”) em sociologia pela Princeton Universit.
Contato: lsteele@princeton.edu

Em 2007, a socióloga e pesquisadora Liza Steele esteve no Brasil fazendo um intercâmbio para seus estudos e pesquisa, que envolviam temas como religião, política e desigualdade social no Brasil. Na ocasião, Liza buscou apoio do ISER, e contou com a ajuda dos pesquisadores Christina Vital e Flávio Conrado, que a auxiliaram no acesso a muitos dos seus entrevistados, além de dados e literatura acadêmica disponíveis na instituição. Um dos resultados dessa pesquisa está sintetizado no artigo a seguir.

“Um presente de Deus”: Mães Adolescentes e Religião nas Favelas Brasileiras
Embora haja forte evidência de que a ‘rigidez’ doutrinária de algumas igrejas desempenhou uma parte vital em seu crescimento e força nos Estados Unidos, essas teorias não parecem explicar o enorme sucesso de tais igrejas nas favelas do Rio de Janeiro, Brasil – ou, mais geralmente, em comunidades pobres ou marginalizadas em todas as partes do mundo. Em vez disso, uma moralidade mais adaptável, condizente às circunstâncias dessas comunidades, parece triunfar, o que sugere teoria alternativa de força sem rigidez.

Baseando-se em mais de 50 entrevistas realizadas no Rio de Janeiro 1 com mães jovens, líderes de igrejas católicas e evangélicas que trabalham com as classes populares, e pessoal das organizações não-governamentais, este artigo busca compreender a aceitação – até aprovação – que adolescentes grávidas e solteiras encontram nas igrejas tradicionalmente rígidas das favelas.

Todas as trinta e duas mães adolescentes (aquelas com idade dezenove ou menos em sua primeira gravidez) entrevistadas foram associadas a igrejas, principalmente igrejas tradicionalmente rígidas, seja no momento das entrevistas ou no passado recente.2

Na ocasião das entrevistas, vinte e três das mães estavam freqüentando igrejas evangélicas – dezessete Pentecostais, quatro Neo-Pentecostais, uma Testemunha de Jeová, e uma não especificada. Outras quatro mães haviam participado de igrejas Pentecostais ou Neo-Pentecostais no passado. Além disso, nove mães estavam freqüentando igrejas Católicas, e duas tinham freqüentado no passado. Duas mães participavam de centros espíritas (Candomblé, Umbanda, etc) e outras duas tinham participado no passado. Cinco mães não tinham nenhuma participação em qualquer igreja ou centro espírita na hora de suas entrevistas, embora todas elas tivessem afiliações anteriores. Como é evidente pelo fato de que havia mais de trinta e duas afiliações religiosas atuais mencionadas no momento da entrevista, vários dos meus entrevistados estavam freqüentando mais de um local de culto no momento em que eu as entrevistei.

Ao mesmo tempo, nenhuma das mães jovens que entrevistei tinham sido casadas oficialmente – no civil ou religioso – antes de ter filhos. Uma delas, por exemplo, casou-se depois de morar com o marido por três anos e já ter começado uma família com ele. Outra teve três filhas de relacionamentos anteriores ao casamento (o marido não era o pai de suas filhas e eles não tiveram nenhum filho juntos). Dezessete mães ainda estavam romanticamente envolvidas em diferentes graus com os pais de pelo menos um de seus filhos.

Quatro das crianças recebem alguma forma de pensão de seus pais, e doze moravam com os respectivos pais.

Evidentemente, do ponto de vista de um grupo religioso, quando um casal já está convivendo a proibição de sexo pré-marital é irrealista. E dada a sua prevalência no Brasil, os grupos religiosos provavelmente não consideram a imposição deste tipo de proibição como pragmática. Além disso, muitos casais começam convivendo quando eles ainda são jovens demais para se casarem legalmente. Um desafio relacionado diz respeito à diminuição da idade em que ocorre a iniciação sexual. Com mais de sessenta e três por cento das meninas nas zonas urbanas do Brasil terem tido sua primeira experiência sexual aos quatorze anos,3 e às razões pelas quais esta idade inferior faz a gravidez precoce mais provável.

Aliás, a idade média em que meus entrevistados engravidaram pela primeira vez foi pouco mais de quinze anos. Dezessete mães tinham um filho ou estavam esperando seu primeiro, onze tiveram dois filhos ou estavam grávidas de seu segundo, três tinham três filhos ou estavam esperando seu terceiro, e uma tinha quatro filhos.

A respeito de como lidar com jovens mães solteiras em suas igrejas, os grandes temas entre os líderes religiosos com quem falei foram, dadas as circunstâncias difíceis das comunidades em que eles trabalhavam, empatia e compaixão. Todos os líderes parecem ter se adaptado às circunstâncias menos do que ideais de suas comunidades, levando-os a moralmente privilegiar assistência aos necessitados, e aceitar a falibilidade humana – talvez deixando o julgamento para Deus – ao invés de punir digressões sexuais. E a grande maioria das mães que eu entrevistei (apenas seis das trinta e duas tinham enfrentado ou percebido discriminação) havia encontrado ambientes versáteis, hospitaleiros e acolhedores, ao invés de rígidos e doutrinariamente inflexíveis.

Treze das minhas entrevistadas estavam recebendo ajuda material – como alimentos, roupas e pagamento de creche – a partir de instituições religiosas locais. Duas das nove mães com afiliações católicas presentes, e onze das vinte e três mães com afiliações evangélicas presentes estavam recebendo ajuda das igrejas.

Muitas igrejas tradicionalmente ‘rígidas’, na esperança de prosperar nas favelas, parecem ter achado necessário ou preferível ser moralmente flexível quando confrontadas com questões da gravidez precoce ou da maternidade solteira. Certos aspectos da vida nessas comunidades podem influenciar a maneira com que seus moradores e líderes religiosos locais compreendem e interpretam a moralidade – os mais proeminentes sendo o fantasma sempre presente da violência na vida cotidiana, a crença popular que a maternidade é preferível ao aborto, e o alto valor atribuído à maternidade em tais contextos.

Em um mercado religioso muito competitivo como aquele do Brasil, Chesnut4 descreve as igrejas se comportando da mesma forma que empresas, abordando membros e membros potenciais como consumidores. Ele conclui que as empresas de maior sucesso em tal economia de mercado têm que se adaptar à produção e comercialização de seus produtos religiosos para as realidades da vida privada. E Iannaccone,5 um dos principais defensores do argumento que a rigidez reforça as igrejas, assinalou que a quantidade ideal de rigor depende das características socioeconômicas dos membros de um grupo. As realidades da vida cotidiana nas favelas – a violência e a marginalidade, a valorização da maternidade nesse contexto, a estigmatização do aborto – provavelmente vém contribuindo à moralidade mais flexível que observei.

Do ponto de vista das igrejas ‘rígidas’, que enfrentam os desafios da vida cotidiana nas favelas, apesar de uma gravidez não-marital poder ter representado inicialmente uma digressão moral – relações sexuais extra-conjugais – a continuação da gravidez pode ser vista como uma decisão ainda mais importante moralmente – a não execução do aborto. Assim, o ato inicial imoral potencialmente oferece ao infrator uma nova oportunidade de provar sua moralidade, evitando cometer o pecado muito mais grave que é o aborto.

Além disso, diferentemente das questões de violência, o tráfico de drogas e aborto, enquanto a maternidade na adolescência pode ser considerada um problema social por brasileiros em geral, e maternidade solteira um problema moral para as igrejas rígidas, este ‘problema’, em última análise, produz pelo menos alguns resultados positivos – da nova vida e da maternidade, com crianças consideradas ‘um presente de Deus.’

______________________________________________

Notas:
1 Quatro das entrevistas com as mães jovens foram conduzidas por Elizabete Albernaz, Departamento de Antropologia, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
2 Devo salientar aqui que, embora a minha pergunta de pesquisa foi sobre a religião, não foi um fator no recrutamento dos participantes, que foram selecionados com base na sua condição de maternidade ou gravidez, e com base em suas idades.
3 Heilborn, Maria Luiza, Estela M. L. Aquino, Michel Bozon, and Daniela Riva Knauth. 2006. O Aprendizado da Sexualidade. Rio de Janeiro: Garamond & Fiocruz.
4 Chesnut, R. Andrew. 2003. “A Preferential Option for the Spirit: The Catholic Charismatic Renewal in Latin America’s New Religious Economy.” Latin American Politics and Society. 45:55-85.
5 Iannaccone, Laurence R. 1994. “Why Strict Churches are Strong.” The American Journal of Sociology. 99:1180-1211.