Chegou a hora da sustentabilidade sair do papel: um relato sobre o sustentável

  • Maria Rita Villela

 é antropóloga, pesquisadora do Programa de Meio Ambiente e Desenvolvimento do ISER.

O ISER tem procurado participar dos eventos que versam sobre o desenvolvimento sustentável pelo interesse de seus pesquisadores em acompanhar como esse conceito vem sendo apropriado por diferentes atores e setores da sociedade civil. Nascido de um berço praticamente ideológico e teórico, hoje o conceito de desenvolvimento sustentável vem adquirindo um tom mais voltado para a ação. Não é por acaso que o último Sustentável 2009 teve como tema “Sustentabilidade na prática: tendências globais, inovação e educação” e como lema “Chegou a hora da sustentabilidade sair do papel”.

O encontro promovido pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) começou no dia 4/8 em tom bastante esperançoso e diferente do que se costuma ver no ramo empresarial, a começar pela escolha dos mestres de cerimônia: os Doutores da Alegria. Vendo o alto escalão de executivos de diversas empresas, de terno, jogando um globo inflável pelo auditório e depois cumprimentando seus vizinhos, dedicando-lhes as boas vindas, parecia que o encontro poderia até trazer algo de novo, de inspirador. Mas a seguinte mesa composta pelos anfitriões do evento imprimiu um outro tom de falas achatadas, embora os palestrantes pertencessem a diversos setores – universidade, empresa, sociedade civil, governo e ONGs.

A mesa “Inovação para mudanças globais: perspectivas e desafios” contou com palestra proferida por Achim Steiner, diretor do PNUD no Brasil. Ele pintou um quadro otimista comprovado por números ilustrando a atual conjuntura sócio-ambiental do mundo, focando as mudanças climáticas como o eixo motor da mudança de que precisamos. Citou pesquisas que indicam que tecnologias verdes, isto é, aquelas que contribuem para uma sociedade de baixo carbono, ao contrário do que muitos pensam, podem gerar muito mais empregos do que as tradicionais, e comprovou: o mercado de petróleo e gás no mundo para cada 1 milhão de dólares investido gera 4 empregos e o ligado às energias renováveis, para o mesmo valor investido, tem o potencial de geração de 18 empregos. Isso é muito significativo diante do temor de que o investimento em tecnologias de baixo carbono impeça a geração de empregos em tempos de crise financeira.

A fala da Secretária de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental, Samyra Crespo, incitou a participação de outros setores do governo, e não só do Ministério do Meio Ambiente, nas novas edições do encontro, ao que Fernando Almeida, presidente do CEBDS, respondeu que muitos foram chamados, mas que a mobilização para essa questão tem sido difícil. Samyra concluiu com uma avaliação histórica da temática, afirmando que já houve evolução no paradigma ambiental desde 1992, resultante dada Eco-92, e sugere a realização de um evento comemorativo dos 20 anos do encontro em 2012 visando pavimentar o caminho para as próximas décadas.

Respondendo a uma pergunta da platéia sobre como mobilizar a sociedade para ação diante do cenário das mudanças climáticas o Dr. José Goldemberg, que compunha a mesma mesa, sugeriu as lideranças religiosas fossem mobilizadas para o tema. Segundo ele, essas lideranças tem uma capilaridade sem igual na sociedade e portanto teriam um impacto significativo na difusão do conhecimento e de práticas na direção de uma sociedade de baixo carbono.

Na manhã do segundo dia de encontro, na plenária “Inovação em processos e produtos sustentáveis”, com a presença de todos os expositores, apenas duas exposições se destacaram: a do representante da GlaxoSmithKline, empresa farmacêutica inglesa que vem investindo grande parte de seus recursos na distribuição de medicamentos e vacinas para a população da base da pirâmide que não tem acesso a medicamentos, e a da UMICORE, antiga empresa mineradora que mudou sua visão, estratégia e valores, demonstrando ser possível se fazer negócio no cenário atual das mudanças climáticas. Essa indústria começou analisando o conceito da empresa: produzir materiais de metal. Daí resultou a nova logomarca “materials for a better life” (materiais para uma vida melhor). Definiu ainda, o que para eles é desenvolvimento sustentável: aquilo que se pode fazer para sempre. A partir dessa nova visão e redefinição do escopo da empresa, todo o processo produtivo construído ao longo dos 150 anos da empresa foi modificado, iniciando um novo ciclo de produção sustentável. A empresa hoje trabalha com reciclagem de metais usados e com isso de mineradora tornou-se recicladora, por meio do aprimoramento da logística, transporte e tecnologias de reciclagem. Hoje o seu maior desafio é restaurar o dano feito no passado, sobretudo nos países africanos, onde ainda impera a guerra civil, o que impede o acesso às antigas minas.

Para a mesa do tema “Ruptura ou transição para uma sociedade de baixo carbono” foram convidados representantes de negócios da Shell e da Usina Hidroelétrica Santo Antonio, o Secretário do Verde de São Paulo, Eduardo Jorge, e um representante da World Wildlife Fund (WWF). As apresentações das duas empresas foram lastimáveis, uma vez que sequer apresentaram qualquer esboço de resposta à pergunta que constituía o tema da mesa. O representante do governo municipal de São Paulo surpreendentemente foi o mais informativo e provocador, mostrando as ações que sua secretaria vem implementando no Estado. Uma luz no fim do túnel.

A Shell se restringiu à apresentação do seu programa com relação às mudanças do clima e todas as suas pesquisas, mas em nenhum momento questionou a perpetuidade dos combustíveis fósseis ou mencionou investimentos em energias alternativas.

A apresentação do representante da UHE Santo Antonio não abordou o tema “sociedade de baixo carbono” nem citou informações quanto à vantagem comparativa do uso de hidrelétricas em relação à matriz fóssil, no cenário das mudanças climáticas. Em apresentação meramente descritiva do empreendimento e pouco consistente, deixou muito a desejar.

No terceiro e último dia a frustração em relação à véspera deu lugar a uma injeção de ânimo na mesa “Liderança e empreendedorismo socioambiental”, moderada por Thais Corral, atuante no tema das mudanças climáticas do Global Leadership Network. A primeira apresentação do jovem Stef van Dongen, diretor da ENVIU, mostrou como é a nova geração que romperá o paradigma atual. Com apenas 33 anos e nascido de uma família de empreendedores, esse jovem e simpático rapaz é o inventor das discotecas verdes que entre outras coisas geram sua própria energia a partir da dança dos seus freqüentadores. Inovação, ousadia, empolgação e efetividade, nos mostrou Stef, são o segredo para os negócios do futuro.

Igualmente instigante foi a apresentação do presidente da Fundação Dabawalla, de Mumbai. De uma forma descontraída e animada, o palestrante mostrou como uma tecnologia social de centenas de anos, cujo único objetivo é transportar a “marmita” dos trabalhadores de Mumbai ao local de trabalho e retornar o pote vazio à sua casa no final da tarde, que conta com 80% dos trabalhadores sem escolaridade, funciona, é eficiente e não emite carbono, pois os dabawallas (os transportadores de “marmita”) utilizam trens e bicicletas. Tal tecnologia social é ainda responsável pelo bem estar daqueles que a utilizam, pois se alimentam de comida caseira diariamente, por um custo baixo de cerca de 7 dólares por mês.

Finalmente, o workshop sobre liderança “O líder sustentável criando a nova ordem mundial” definiu o que seria o líder sustentável, mas não o que seria um “nova ordem mundial”. Apesar de terem citado a famosa frase do Einstein que reza que os problemas de hoje não podem ser resolvidos com a mesma consciência que os criou, não ficou claro entenderem a necessidade de se mudar o paradigma. Ao apresentar sua conceituação sobre competências da liderança, os facilitadores apontaram um dos oito atributos do líder sustentável como devendo ser o ‘foco nos resultados’, sendo que, na sua definição, resultados devem ser entendidos como lucro. A prioridade do “bolso dos acionistas” em momento nenhum foi questionada pelos participantes e a cultura da maximização e da exacerbação tampouco. Nada contra o lucro, indispensável para reinvestimento e desenvolvimento dos negócios, mas afirmar que o lucro pura e simplesmente deve ser a meta final e primordial das empresas, nos dias de hoje, em que enfrentamos crises climática, social e de paradigmas, certamente não é suficiente. Está mais do que na hora de mudar isso.