8 mai. 2009 | Número 5
 
EDITORIAL

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Equipe:

Editor - Emerson Giumbelli

Composição - Paola Lins e Marília Assad

iserianas

Mídia eletrônica, democratização da comunicação e os evangélicos no Brasil

Há alguns anos, precisamente em 2006, a Fundação Ford procurou o ISER na tentativa de estabelecer com esse uma parceria que viabilizasse a realização de uma pesquisa sobre o comportamento dos evangélicos em comissões legislativas sobre mídia e nos diversos Fóruns que se organizam pelo Brasil a fora sobre essa questão. Foi em 2007 que a equipe de Religião e Sociedade do ISER iniciou esse trabalho. Desde então, coordenação e demais pesquisadores participaram de Fóruns e Campanhas nacionais pela democratização da mídia no Brasil e observou, em Brasília, a Comissão de Ciência e Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática - CCTCI - comissão essa, entre outros, responsável pela avaliação dos processos de concessão de outorga de TV e rádio no Brasil. Outra série de procedimentos de pesquisa foi também realizada como entrevistas com estudiosos do assunto, com militantes pela democratização das comunicações no país e com políticos integrantes ou não da Frente Parlamentar Evangélico sobre o tema da regulação da mídia, clippings de jornais de ampla circulação e a sistematização de informações sobre associações e institutos de mídia religiosa (sejam católicas ou evangélicas). Divulgaremos, neste texto, alguns resultados preliminares da pesquisa. 

Crescimento dos Evangélicos no Brasil e a o Início de sua Presença na Mídia: Conforme dados do Censo Demográfico do IBGE, os evangélicos perfaziam apenas 2,6% da população brasileira na década de 1940. Avançaram para 3,4% em 1950, 4% em 1960, 5,2% em 1970, 6,6% em 1980, 9% em 1991 e, finalmente, 15,5% em 2000. Pesquisa DataFolha de 2007 indica que os evangélicos são 22% da população, dos quais 17% seriam pentecostais. O crescimento dessa presença evangélica no país deu origem, nas últimas décadas, a uma gama significativa de reflexões acadêmicas sobre o fenômeno. A questão de boa parte dos estudos se referia não somente ao crescimento de fiéis, mas ao impacto da disputa que esse crescimento vinha causando no espaço público, da política à mídia, acirrando as disputas que já eram intensas nesses campos.

Os Evangélicos na Mídia - contexto: Na década de 1940 surgiram os primeiros programas de rádio evangélicos no Brasil com a Igreja Adventista. Na década de 1960 seriam também os Adventistas os primeiros a se lançarem na programação televisiva no país. O primeiro programa pentecostal foi veiculado pela TV Tupi sob a direção de MacAlister da Igreja Nova Vida. Até a década de 1980 eram os pastores norte-americanos os mais populares entre o público evangélico nacional. Mas é em meados dos anos 80 que a produção brasileira evangélica para a TV se tornou independente e passou a ocupar espaços em redes nacionais. Em 1989, a Igreja Universal do Reino de Deus - IURD - foi, então, a primeira denominação evangélica a ser proprietária de uma televisão com cobertura nacional. E é justamente a partir da década de meados de 1980, com o final da ditadura, que o debate em torno da democratização da mídia no Brasil ganha força e projeção com a criação e consolidação de Associações, Comissões e Fóruns como o FNDC - Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (1991) e do INTERVOZES - Coletivo Brasil de Comunicação Social (2002). A participação das instituições religiosas (católica e, principalmente, evangélicas) nesse debate foi pouca. Segundo entrevista realizada com integrantes desses movimentos, quando religiosos evangélicos e católicos se aproximavam, por exemplo, como ocorreu na Campanha Contra a Baixaria na TV, a insatisfação quanto as suas atuações era grande: "Eles participaram no início, por volta de um ano e meio, e foram acolhidos. Mas, ao longo do trabalho, os evangélicos recebiam as denúncias e faziam os pareceres embasados em argumentos moralistas - e isso não era diferente do que faziam a freira católica que participava - e não em argumentos ligados aos direitos humanos, como era o objetivo do movimento. Depois de inúmeros constrangimentos, foram convidados a ser retirar". 

Dados Preliminares: Contávamos com o número de 20 redes e emissoras de TV de propriedade de denominações religiosas e/ou de transmissão de conteúdo religioso (Rede Record e Record News não transmitem exclusivamente programas ligados à IURD, mas contam com o Bispo Edir Macedo como principal acionista) sendo 11 evangélicas e 9 católicas. 

Tabela 1. Redes Religiosas no Brasil (dados em construção)

 

Rede/Tvs

Entidade Controladora

Igreja Vinculada

Ano de Fundação

Rede Boas Novas

Fundação Evangélica - Boas Novas

Assembléia de Deus

1993

Família

Rede Família de Comunicação Ltda.

IURD

1998

Rede Gênesis

Sara Brasil

Igreja Sara Nossa Terra

1997

Rede Gospel

Fundação Evangélica Trindade

Igreja Apostólica Renascer em Cristo

1996

Novo Tempo

Tv Educativa

Adventista do 7º Dia

1996

Rede 21*

(*Locação de 22h na grada de da Rede 21 que é uma concessão pública feita à Band)

Igreja Mundial do Poder de Deus

2008

Tv Enlace Juvenil

Grupo Pentecostal da Costa Rica - BH

Igreja Pentecostal Internacional

2007

Tv Super de Televisão

 

Batista da Lagoinha

2002

RIT (Rede Internacional de Televião)

Televisão Cidade Modelo Ltda.

Igreja Internacional da Graça de Deus

1999

Rede Record

Televisão Record

IURD

1989

Record News

(Antiga Rede Mulher)

IURD

2007

Canção Nova

Fundação João Paulo II

Igreja Católica

 

Rede Nazaré de Comunicação

Fundação Nazaré

Igreja Católica (Belém)

1993

Rede Nova Geração de Televisão (NGT)

Fundação de Fátima

 

Igreja Católica (Associação do Senhor Jesus)

1999

Século 21

Fundação Século 21

Igreja Católica (Associação do Senhor Jesus)

1999

Rede Vida

Televisão Independente. de S.José do Rio Preto

Igreja Católica (Instituto Brasileiro de Comunicação Cristã)

1995

Aparecida

Fundação Aparecida

Igreja Católica (Santuário Aparecida)

2005

Tv Sudoeste

Pato Branco

Fundação Cultural Celinauta (Rede Celinauta de Comunicação)

Igreja Católica (Frades Franciscanos)

1990

Tv Educar

Fundação Dom Bosco de Comunicação

Igreja Católica

2001

Tv Imaculada

Milícia da Imaculada em Santo André

Igreja Católica

2001

 

Algumas avaliações preliminares são possíveis a partir da contabilização das TVs religiosas no Brasil e da pesquisa documental e de campo ainda em curso e com prazo de finalização em agosto de 2009:
1) Quando falamos de evangélicos na mídia estamos falando de um grupo restrito em relação ao seu próprio campo religioso. Das 1300 denominações evangélicas existentes no país, segundo dados do IBGE, 2000, somente 9 têm propriedade de uma rede.
2) Essa participação é restrita por uma série de fatores dos quais destacamos dois: doutrinários (há muitas denominações que acham o recurso televisivo ilegítimo para a pregação e proselitismo religioso como no caso das Igrejas Batistas ligadas à Convenção Nacional, da Deus é Amor, entret alli) e financeiros (são muitas as denominações, mesmo entre as que se aliam a princípios da chamada Teologia da Libertação, que não dispõem de altas somas para financiar programas em tvs. Nesses casos, a programação em rádios AM e FM e mesmo rádios e TVs via internet são os meios mais utilizados).
3) Dos 47 parlamentares que compõem a Frente Parlamentar Evangélica, aproximadamente 20% integravam a CCTIC;
4) A partir das entrevistas e da observação da atuação desses parlamentares na comissão é possível dizer que eles estão pouco atentos a questões mais centrais da mídia e da inovação tecnológica hoje, tendo mais atenção na sua comunicação e fortalecimento junto às bases regionais que ali os colocaram e com sua identificação evangélica (ex. Dep. Zequinha Marinho, PMDB/PA, Assembléia de Deus, e Dep. Jurandyr Loureiro, PAN/ES, Assembléia de Deus).
5) Neste ponto é importantíssimo chamar atenção para o fato de que dentre os integrantes da Frente Parlamentar Evangélica há muita distinção quanto à condução de seus mandatos. Para os que formaram sua base e/ou tiveram suas candidaturas forjadas nas igrejas, a atenção maior é para a comunicação com essa base a fim de viabilizar segundos e terceiros mandatos. Há igrejas que, ainda que tenham sido a base de sustentação para a formação da liderança parlamentar, têm pouco controle do mandato. Dentre as que mais conseguem um diálogo e o compromisso do parlamentar estão a IURD, a Internacional da Graça, a Sara Nossa Terra e a Assembléia de Deus. Dentre os Batistas, por exemplo, há pouco diálogo entre parlamentares e lideranças religiosas batistas, ou melhor, há menos influência de um sobre os outros. Além da diferença em temos da denominação a qual o parlamentar está vinculado, tem ainda a diferença em termos da própria trajetória política. É o caso do dep. Gilmar Machado, PT/MG, Batista e do dep. Walter Pinheiro, PT/BA, Batista que têm suas bases eleitorais de origem fundadas na intensa participação em movimentos sociais, na política de esquerda e de militância pelos direitos humanos. A identidade religiosa, nesses casos, segundo declaração dos próprios parlamentares durante entrevista a nos concedida e da observação de campo, tem pouca influência em seus mandatos.

 

6) A percepção da mídia como veículo estratégico na difusão da mensagem religiosa e da formação de uma nova relação dos fiéis com as lideranças e igrejas evangélicas é uma realidade, mas, com base nisso, não podemos, ainda, afirmar que há uma ação conjunta e orquestrada dos segmentos evangélicos, até mesmo porque competem intensamente entre eles, para a tomada da mídia televisiva no Brasil.
7) Boa parte do impacto social, leia-se, do incômodo com a presença religiosa na mídia televisiva causa vem do fato dos evangélicos serem aqueles que mais compram horários na grade horária das emissoras abertas no Brasil. Somente com base nos dados da grade horária de programação no Rio de Janeiro temos, aproximadamente 189h semanais de programas religiosos (3h católicos e 1h umbanda, o restante entre evangélicos e protestantes - números obtidos da programação veiculada em jornais de circulação nacional e vale salientar que esses números têm grande variação ao longo do ano).
8) Cabe acrescentar, por fim, que reconhecemos a imensa fragmentação e a presença de uma miríade de igrejas com variadas doutrinas e atuações sociais que caracterizam o campo evangélico sabendo dos limites de chamar tamanha diversidade pelo nome "evangélicos". Contudo, pela brevidade da comunicação, decidimos fazê-lo a fim de aumentar nossa capacidade de exposição dos resultados preliminares da pesquisa e de compreensão por parte do público em geral. 

Nosso esforço, nessa pesquisa, o que se alia aos princípios norteadores do ISER, é de contribuir para o esclarecimento de questões que tomam o debate público. Pretendemos, assim, contribuir para o fortalecimento dos direitos humanos a partir da produção de informações confiáveis que subsidiem mais e mais a nossa ação e a dos demais militantes pela transparência nas concessões públicas de TV e rádio, pela democracia no acesso às outorgas e na produção de conteúdos para a TV no Brasil.  

Texto: Christina Vital (chrisvital@iser.org.br)
Imagem: br.geocities.com/preserveoam/am_religiosas.htm


vitrine

Lançamentos do livro "O problema da incredulidade no século XVI - A religião de Rabelais" de Lucien Febvre

Acaba de ser relançada em português a obra ‘O problema da incredulidade no século XVI - A religião de Rabelais' do historiador Lucien Febvre. Publicado originalmente em 1942, o título clássico da historiografia moderna examina o conceito de incredulidade no século XVI, tomando como fio condutor a análise da vida e da obra do escritor e padre francês François Rabelais, reconhecido crítico das instituições eclesiásticas católicas. Editada pela Companhia das Letras, a publicação contou com a tradução de Maria Lucia Machado.

Para uma pequena apresentação da obra no site da Livraria Editora Folha:
http://publifolha.folha.com.br/catalogo/livros/145730/

Para conferir uma matéria na Revista de História da Biblioteca Nacional sobre o lançamento do livro, no dia 19 de março:
http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=2303

 

Imagem: editora Companhia das Letras

 


laboratório

"Desenhando com terços" no espaço público: sacralizações na religião e na arte a partir de uma controvérsia

Dissertação de mestrado defendida por Paola Lins de Oliveira junto ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ, em fevereiro de 2009.

A pesquisa parte do caso da retirada da obra "Desenhando com terços" da artista plástica Márcia X. de uma exposição exibida no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro. A decisão foi tomada pelo conselho diretor da instituição após manifestações de católicos. Dispondo quatro terços unidos em duplas formando dois pênis entrecruzados, a obra foi considerada ofensiva por misturar religião e erotismo. A partir do episódio, estabelece-se uma controvérsia na qual diferentes atores, sobretudo religiosos e artistas, debatem a respeito dos limites de atuação da religião em um espaço público dedicado à arte. A análise dos argumentos utilizados por religiosos e artistas evidencia o estabelecimento de distinções entre as esferas que alude a tentativas de sacralização do religioso e também da arte. Direcionando o foco da atenção para "Desenhando com terços", realizamos exercícios interpretativos a respeito dos terços católicos e da obra de Márcia X.. Desse modo, foi possível revelar diferentes procedimentos de sacralização em jogo na circulação e nos usos sociais dos terços católicos, e também no tratamento transgressor conferido à temática religiosa no conjunto da produção artística de Márcia X..

Em abril de 2006, após dois meses de exibição no Centro Cultural do Banco do Brasil, a exposição "Erotica - os sentidos na arte" sofreu uma alteração em sua composição original. A obra "Desenhando com Terços" da artista plástica Márcia X. foi retirada da exposição depois de uma ordem do conselho diretor do Banco do Brasil. À revelia da curadoria, a decisão foi tomada após o recebimento de inúmeras reclamações por e-mail, telefonemas, e a apresentação de uma notícia-crime contra o centro cultural. O autor da denúncia, Carlos Dias, ex-deputado, empresário e membro atuante da Renovação Carismática Católica, argumentou que a obra era uma afronta à religião católica por misturar erotismo e religião.

Após a retirada da obra, artistas, religiosos, políticos, representantes institucionais e cidadãos se mobilizaram, com diferentes níveis de engajamento, gerando repercussões que tomaram tanto a forma de textos e manifestos disponíveis em canais de comunicação impressa ou virtual, quanto de passeatas e outros atos públicos organizados. As discussões entre os atores em disputa giravam em torno principalmente dos limites de atuação das instâncias religiosa e artística, das relações que ambas estabelecem entre si e o papel que cada uma desempenha na sociedade. Sobretudo entre religiosos e artistas, o debate se polarizou entre os que defendiam a retirada da obra e os que eram contrários a tal medida. Enquanto os religiosos alegavam que "Desenhando com terços" constitui uma ofensa ao catolicismo, os artistas defenderam o direito à liberdade de expressão artística.

A primeira parte da pesquisa é dedicada à análise dos argumentos em jogo no debate. Nesse momento, foi possível perceber que a discussão se configurou a partir de uma divergência entre interesses religiosos e artísticos atuando em um espaço de circulação pública e dedicado a exposições de arte. Para os artistas, a questão do espaço era fundamental e freqüentemente levantada para ressaltar a inadequação da demanda religiosa em uma instituição cultural, que além de ser um espaço público é também dedicado ao incentivo e à promoção das produções artísticas. Para os religiosos, o caráter público do CCBB não caracterizaria inadequação, pelo contrário: por ser uma instituição pública e financiada com o dinheiro público do contribuinte (de todos os brasileiros e dos correntistas do Banco do Brasil), deveria portanto respeitar o desejo "da maioria" dos brasileiros, que segundo eles seria católica.

A intervenção religiosa no caso da retirada de "Desenhando com terços" de "Erotica" tem como pano de fundo uma questão mais geral a respeito dos modos legítimos e ilegítimos de atuação da religião na sociedade. Em linhas gerais, a pergunta que conduz a polêmica entre os que contestaram a decisão do CCBB poderia ser colocada da seguinte forma: se afinal vivemos em uma sociedade democrática, moderna e secularizada, por que a religião ainda intervém em instâncias públicas, sejam elas ligadas à arte, à política ou à economia?

Ao longo do debate, os diversos atores envolvidos apresentaram visões e "soluções" para a questão. O procedimento principal nesse sentido era tentar estabelecer as fronteiras e competências do que seria a "religião", a "arte" e mesmo o "espaço público", como ambiente de atuação e relação entre as esferas. Nesse exercício de definição, apareceram movimentos, tanto entre religiosos quanto entre artistas, que procuraram não só separar sua área de atuação das outras, como também torná-la intangível, impenetrável. Assim, católicos defendiam a preservação do terço como objeto sagrado e reservado ao universo religioso, e que não deveria ser misturado com outros elementos, principalmente aqueles considerados profanos. Enquanto isso, artistas recusavam qualquer intervenção externa, sobretudo religiosa, no universo da arte. Na dissertação, tentamos mostrar como esses argumentos indicavam diferentes tentativas de sacralização.

Seguindo-se à análise dos argumentos, direcionamos a atenção para a obra objeto de controvérsia, "Desenhando com terços", e realizamos exercícios interpretativos a respeito dos terços católicos e da obra de Márcia X.. Assim, foi possível revelar diversas modalidades de sacralização que operam na circulação e nos usos sociais dos terços católicos, e também no tratamento transgressor dado à religião no conjunto da produção artística de Márcia X..

A principal motivação para escolher tais percursos analíticos estava na alegação dos católicos de que a obra seria uma ofensa porque profanaria o sentido sagrado do objeto de devoção. Empreendemos, portanto, uma investigação a respeito dos usos e da circulação social do terço para compreender como se constrói seu valor sagrado. Na análise, tentamos mostrar que o valor sagrado do objeto é compatível com usos e sentidos que são ao mesmo tempo especiais por estarem relacionados à origem sagrada da devoção à oração e seu potencial santificador; e ordinários já que o objeto não perde seu sentido banal de instrumento, de acessório. Além disso, os terços são produzidos em escala industrial e multiplicados nos espaços públicos com o incentivo católico, através de campanhas apoiadas pela hierarquia e realizadas pelos fiéis, com a distribuição de terços e o incentivo à oração em espaços não-religiosos. Esse movimento de circulação do objeto além dos limites religiosos vai de encontro com a demanda dos católicos envolvidos na controvérsia que procuram restringir o valor sagrado do terço ao universo religioso, e evidencia uma aposta constante na ocupação dos espaços públicos, como podemos ver por exemplo no caso dos adesivos de carro com vários modelos de desenhos com terços.

O outro exercício interpretativo feito a partir de "Desenhando com terços" tem como foco a trajetória artística de Márcia X.. A intenção principal era evidenciar que a manipulação polêmica de elementos religiosos é uma constante nos trabalhos da performer e artista plástica carioca, o que torna "Desenhando com terços" uma obra "iconoclasta" entre outras que misturam temas como religião, sexualidade e infância. Analisando os textos produzidos pela artista e pelos críticos de arte, foi possível esboçar uma "linhagem" de trabalhos artísticos, que ao tratar as temáticas da religião e do sagrado de forma controversa apresenta uma proposta alternativa de sacralização desses mesmos elementos religiosos, e entre eles o terço católico. Para desenvolver essa interpretação, partimos de um conjunto de autores - Georges Bataille, Roger Caillois e Michel Leiris - que revisitam o conceito clássico de sagrado formulado por Émile Durkheim, fundamentado na distinção absoluta em relação ao profano. Esses autores ajudaram a mostrar que a constante associação inesperada de elementos contrastantes (como no caso dos terços e dos pênis) também pode ser percebida como uma modalidade de sacralização, já que o "encontro" dos opostos libera uma força transgressora que consome tudo que entra em contato com ela, e provoca sentimentos de atração e repulsão, característicos da relação que as pessoas estabelecem com o sagrado.

Finalmente, sublinhamos que a pesquisa se insere e se ancora em um debate antropológico e sociológico mais amplo sobre as relações entre religião, modernidade e espaço público. Tanto na análise da controvérsia, quanto no exame dos terços católicos e da obra de Márcia X. tentamos mostrar que permanecem questões e visões a respeito do lugar da religião na modernidade, sobre os modos como os espaços públicos são ocupados pela religião, e também sobre como o sagrado pode aparecer de uma maneira diferente do conjunto de regras recomendadas pela religião instituída.

Texto: Paola Lins de Oliveira (poliveira@iser.org.br)
Imagem: "Desenhando com terços", fotograma do acervo de Márcia X. (fotógrafo Rômulo Fialdini). Disponível no site oficial da artista (
www.marciax.uol.com.br).
Obs: a obra retirada do CCBB do Rio de Janeiro e alvo da controvérsia analisada é um dos registros da performance de Márcia X.

 


religiosamente

O Global e o Local - da resposta católica à AIDS

Partimos da constatação de que a resposta nacional à epidemia de Aids contou desde o início com a participação da sociedade civil organizada, tendo como parcela específica desta as organizações religiosas. Essa participação tem sido cada vez mais incentivada por organizações internacionais, como a Unaids, e nacionais, principalmente na figura do Programa Nacional de DST e Aids - Ministério da Saúde.

Os dados sobre pertencimento religioso do censo de 2000 no Brasil apontaram, por um lado, o aumento entre fiéis neo-pentecostais e entre os que se denominam "sem religião", e por outro lado, mostraram que há manutenção da constante redução no número de fiéis do catolicismo. Estes dados têm sido interpretados como conseqüência da inadequação do catolicismo ao movimento de modernização da sociedade brasileira. Neste sentido é exemplar a "controvérsia" acerca do uso da camisinha, refletindo o "atraso" do catolicismo frente à "modernidade" brasileira e as tendências internacionais. A repercussão da declaração do Papa Bento XVI a respeito do uso de preservativo em sua visita ao Brasil, confrontada com a pesquisa IBOPE/Católicas pelo Direito de Decidir, realizada entre 2006 e 2007 com jovens acima de 16 anos (disponível em http://www.ibope.com.br/opiniao_publica/downloads/opp008_cdd_mai07.pdf), mostrou o elevado percentual de indivíduos que se declaram praticantes católicos e que utilizam e apóiam o uso do preservativo, foi lida também como demonstrativa de uma cisão entre duas tendências do pensamento católico: uma global, que reflete a posição da hierarquia católica, e outra local, que pode ser observada em algumas ações pastorais.

Buscando investigar como se produzem respostas religiosas a epidemia de Aids no país, foi possível identificar como se relacionam essas duas tendências do universo católico em um contexto específico. Acompanhamos por dois anos as celebrações e as atividades cotidianas dos voluntários, usuários e coordenadores dos serviços da Casa Fonte Colombo, auto-intitulada um Centro de promoção da Pessoa Soropositiva (http://www.capuchinhosrs.org.br/fontecolombo/), dirigida pela ordem dos Freis Menores Capuchinhos em PortoAlegre. As atividades da casa incluem o acolhimento e a assistência aos portadores de HIV bem como as ações de prevenção à Aids.

Conquistas locais do catolicismo frente à epidemia de HIV/AIDS

"Colaborar", é a palavra que, segundo os Freis, resume a intenção dos Capuchinhos ao se envolverem no mundo na Aids. Ao remontarem a história desse trabalho apontam o surgimento de uma necessidade imposta pelas condições da doença.

"A Província dos Frades Menores Capuchinhos do Rio Grande do Sul, atenta a realidade, ouviu o apelo de marcar presença junto aos portadores de HIV e suas famílias." Frei Lunardi (Boletim informativo Abril/2000- Ano 1 - n1).

Percebido esse apelo, e ainda sem muitas informações, a primeira tentativa de trabalho foi de montar uma casa de passagem, com serviço de acolhida e hospedagem aos portadores de HIV, que possivelmente viriam do interior à capital para fazer exames e receber atendimento médico. No entanto, essa investida não se mostrou eficaz e dois fatores colaboraram para isso: com a municipalização da saúde, a maioria dos portadores começou a ser atendida regionalmente, assim não tendo mais a necessidade do deslocamento à capital. Segundo, o acesso ao tratamento implicou uma queda na taxa de mortalidade, permitindo que as pessoas passassem a viver com Aids. Assim, os Freis re-elaboram o projeto e em 1999 fundam a Casa Fonte Colombo.

Acompanhamos desde 2006 as celebrações e as atividades cotidianas dos voluntários, usuários e coordenadores dos serviços da Casa Fonte Colombo. A Casa se localiza próxima a uma região de prostituição da cidade, no limite entre uma zona industrial e uma zona comercial. O prédio, olhado de fora, não tem nenhuma identificação, poderia ser o estoque de alguma empresa, no entanto ao entrarmos parece o interior de uma clínica. Numa segunda vista percebemos os símbolos católicos que em nada diferem dos símbolos encontrados em muitos hospitais públicos no Brasil, crucifixos e quadros com imagens, principalmente de São Francisco.

Das práticas locais de acolhimento

Os usuários, assim são habitualmente chamados os portadores do HIV/Aids que buscam os serviços da Casa, ao chegarem pela primeira vez recebem um acolhimento e posteriormente é feita uma ficha com seus dados. A Casa atende indivíduos muito empobrecidos, podendo-se afirmar que, no universo de ONGs/Aids da cidade de Porto Alegre, ela representa
atualmente a instituição que lida com a demanda da população mais vulnerável. Essa característica estabelece um diferencial positivo na relação com os programas de Aids.

Conquistas globais do catolicismo frente à epidemia de HIV/AIDS

Embora as atividades da Casa Fonte Colombo estejam mais diretamente ligadas à assistência aos portadores do HIV, a ação dos Freis no mundo AIDS não para por aí, é defendida também a necessidade de tomada de posições políticas, sendo essas expostas
para dentro e fora da Igreja Católica. A partir disso temse conseguido avanços no âmbito católico global.
• As conquistas dentro da Igreja Católica partem do importante marco do Concílio Vaticano II (1965). Apenas a partir deste que a Igreja Católica foi capaz de se reconciliar com a modernidade. Gaudium et spes, constituição pastoral editada neste Concílio, inaugura
uma nova visão do homem e uma nova atitude diante da cultura.
• Outro importante e simultâneo acontecimento foi o desenvolvimento da Teologia da Libertação, que faz com que a Igreja Católica assuma o compromisso com as classes populares. Esses dois fatores impulsionam a igreja a assumir a defesa dos direitos
humanos.
• Mais recentemente a Carta de Aparecida, documento da CELAM, faz menção à Aids e reconhece a importância da Pastoral de DST/Aids, facilitando os trabalhos locais já existentes e impulsionando novos.
"421.Deve-se, portanto, estimular nas Igrejas locais a Pastoral da Saúde que inclua diferentes campos de atenção. Consideramos de grande prioridade fomentar uma pastoral com pessoas que vivem com o HIV/Aids, em seu amplo contexto e em seus significados
pastorais: que promova o acompanhamento compreensivo, misericordioso e a defesa dos direitos das pessoas infectadas; que implemente a informação, promova a educação e a prevenção, com critérios éticos, principalmente entre as novas gerações para que
desperte a consciência de todos para conter a pandemia. A partir desta V Conferência pedimos aos governos o acesso gratuito e universal aos medicamentos para a
Aids e a doses oportunas."
• Em 30 de Abril de 2008 acontece o Primeiro Encontro de Líderes Cristãos da América Latina em Resposta ao HIV e Aids, evento realizado em Cochabamba, Bolívia. A partir desse encontro é formalizada uma reação cristã à epidemia de Aids em nível continental.

Nossa observação e acompanhamento permite pensar a Casa como produtora de uma nova cultura acerca da Aids, em particular acerca da prevenção à Aids. As ações e escritos que derivam da Casa acarretam uma multiplicação na produção de sentidos sobre a Aids, e
se caracterizam por seu caráter propositivo. Cada situação nova que aparece na Casa, trazida pelos usuários, alimenta uma reflexão que procura encontrar a melhor saída. Na Casa Fonte Colombo o diálogo com os usuários parece servir mais para multiplicar as
perguntas em torno da Aids e trazer elementos para novas reflexões no interior do pensamento católico, originando daí um conjunto de conhecimentos e afirmações que estamos designando de teologia da prevenção. E esta modifica também o mundo Aids,
trazendo novas estratégias para lidar com a epidemia em nível local e global.

Texto: Luana Emil (acadêmica da UFRGS). Extraído do BOLETIM ABIA (www.abiaids.org.br). Edição Especial: Respostas Religiosas à Epidemia de AIDS (http://www.abiaids.org.br/_img/media/bol%20abia%2056.pdf)
Imagem: fonte: Casa Fonte Colombo/RS

 

 


divulgue-se

SIMPÓSIO CIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE


Abertura - 10 minutos

Palestras - 3 palestras (40 minutos)

1) Prof. David Nicodem (Professor Associado - Instituto de Química/UFRJ)
Fé na ciência e ciência na fé

2)Prof. Douglas Carrara (Antropólogo)
Os paradigmas científicos, a sabedoria popular e a espiritualidade humana

3) Dr. Rubens Turci - (Doutor em Ciências Sociais - Estudos Religiosos - McMaster University - Canada)
"Shraddhá" quaerens intellectum (A certeza interior como pressuposto para o conhecimento)


Debate dos palestrantes com a platéia

Encerramento: Coral de crianças guaranis - Coordenação Profa. Marize (Tamikuan) - 20 a 30minutos

Confraternização

SERVIÇO:
DATA: 15 de maio 
HORA: 9:00 - 14:00
LOCAL: Salão Nobre da Decania do CCMN, UFRJ (Av. Athos da Silveira Ramos, 274, Cidade Universitária - Ilha do Fundão)

 

 


 

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