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EDITORIAL
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Equipe:
Editor - Emerson Giumbelli
Composição - Paola Lins e Marília Assad
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SUMÁRIO
Editorial .......................................................................................................... 9
Passado português, presente negro e indizibilidade ameríndia: o caso de Mazagão
Velho, Amapá
Véronique Boyer .................................................................................................... 11
Crianças feiticeiras: reconfigurando família, igrejas e Estado no pós-guerra
angolano
Luena Nunes Pereira ............................................................................................. 30
O dom e a tradição indígena Kapinawá (Ensaio sobre uma noção nativa de
autoria)
Marcos Alexandre dos Santos Albuquerque.......................................................... 56
A presença do religioso no espaço público: modalidades no Brasil
Emerson Giumbelli ................................................................................................. 80
O discurso acadêmico de Rubem Alves sobre “protestantismo” e “repressão”:
algumas observações 30 anos depois
Leonildo Campos ................................................................................................. 102
Não é meu, nem é seu, mas tudo faz parte do axé: algumas considerações
preliminares sobre o tema da propriedade de terreiros de candomblé
José Renato Baptista ............................................................................................ 138
Religiosidade no contexto das terapias com células tronco: uma investigação
comparativa entre pesquisadores “iniciantes e iniciados” e seus pacientes
Naara Luna ......................................................................................................... 156
De la sanidad del cuerpo a la sanidad del alma. Estudio sobre la lógica de
construcción de las identidades colectivas en el neo-pentecostalismo argentino
Joaquín Algranti ................................................................................................... 179
Resenhas
Kenneth Serbin. O papel social dos seminaristas e do clero na modernização da
Igreja Católica e do país
Silvia Fernandes .................................................................................................... 210
Daniel Dennet. Breaking the spell: é a religião um fenômeno natural?
Everaldo Cescon .................................................................................................. 216
O interesse pelo tema da religião não tem, felizmente, uma única porta de entrada. Este número busca explorar algumas das portas menos usuais, mas que enviam o leitor a questões políticas e sociais amplamente debatidas atualmente. Assim, trataremos da religião através de três entradas: as relações com a noção de etnicidade; as transformações do campo religioso brasileiro e as formas de analisá-lo; e certas modalidades de objetivação religiosa da propriedade, da alma e de novas tecnologias.
Com efeito, dissemina-se pouco a pouco nos estudos sobre religiões no Brasil um enfoque que destaca um campo de relações com e através da etnicidade. Religião, cultura e etnicidade se apresentam como noções entrelaçadas, e dão lugar a novos objetos de conhecimento sócio-antropológicos. Três artigos neste número atribuem um lugar central a percepções étnicas e culturais dos seus atores e seus sentidos religiosos. O artigo de Véronique Boyer explora etnograficamente as relações entre festas religiosas e um campo complexo e contraditório de identidades historicamente elaboradas como branca, negra e ameríndia em Marzagão Velho, no Amapá. Os sentidos atribuídos às festas religiosas e as relações destas com os grupos sociais em presença impossibilitam, como destaca a autora, a emergência de uma identidade étnica local unificada. Um processo político de emergência étnica em que uma categoria religiosa, até então relacionada aos cultos afro-brasileiros, ganha uma especial importância é analisado por Marcos Alexandre dos Santos Albuquerque. O seu artigo discorre sobre a reinvenção da tradição indígena Kapinawá, através do ritual do Toré, relacionado a uma noção nativa de autoria. Situado entre estes dois artigos temos uma discussão sobre feitiçaria, no artigo de Luena Nunes Pereira, em um contexto em que grupos étnicos encontram-se envolvidos em situações de guerra e de instabilidade em fronteiras locais e nacionais. As acusações de feitiçaria que incidem sobre crianças Bakongo ganham em inteligibilidade quando se destaca a agência do Estado, ONGs e igrejas num quadro de destruição, de mortes e de esfacelamento das relações familiares.
O campo religioso é objeto de dois artigos neste número. Emerson Giumbelli analisa as formas através das quais o Estado foi legitimando a presença do religioso no espaço público brasileiro, por meio das r
elações que estabeleceu com seus diferentes públicos em momentos históricos precisos. Ao privilegiar as relações que se constituíram entre o Estado e as religiões, o autor demonstra o quanto estas implicaram em modalidades específicas de reconhecimento, que modularam e modulam os sentidos da laicidade no Brasil. O campo religioso brasileiro é, no artigo de Leonildo Silveira Campos, revisitado a partir das questões conceituais e epistemológicas postas pelos ensaios críticos de Rubem Alves sobre o Protestantismo brasileiro. As transformações que este vem sofrendo permitiu ao autor discutir questões epistemológicas importantes relativas à analise dos fenômenos religiosos no Brasil.
No terceiro bloco, a temática da pessoa apresenta-se nos trabalhos de Naara Luna, Joaquin Algranti e José Renato de Carvalho Baptista. Com uma particularidade relevante; todos os três analisam relações pouco exploradas nas cosmologias que abordam: a propriedade no candomblé, o embrião humano e a alma entre neopentecostais. O fio que atravessa e aproxima estes artigos entre si pode ser aquele das relações que os sujeitos religiosos estabelecem com certos objetos: entre o humano e o não-humano no caso dos embriões; entre o espírito e o corpo no caso neopentecostal e, finalmente, entre o individual e o coletivo através da noção de propriedade para os membros dos terreiros de candomblé.
Texto reproduz o editorial da revista. Autoria: Patrícia Birman
Capa do livro: ISER (iser.org.br/religiaoesociedade)
Foi lançada, em setembro de 2008, uma parceria entre ISER e o Departamento Geral Sócio-educativo - DEGASE para realização da pesquisa "Potenciais e Limites da Assistência Religiosa no Sistema Sócio-educativo: Pesquisas, olhares e atuação". O objetivo da pesquisa é realizar um panorama das atividades de assistência religiosa que ocorrem no Sistema Sócio-Educativo do Rio de Janeiro.
- Tendo em vista que os adolescentes que estão nas Unidades de Internação têm direito constitucional à assistência religiosa, a pesquisa busca identificar quais os princípios que norteiam estas atividades, quais são as instituições religiosas que atuam, quantas operam em cada uma das Unidades do DEGASE, quais as atividades mais desenvolvidas por cada denominação religiosa, além de buscar identificar o perfil dos assistentes religiosos - explica, Pedro Simões, coordenador da pesquisa.
Após os primeiros três meses de trabalho, em dezembro de 2008, foi realizado no ISER um encontro para reunir representantes do DEGASE, pesquisadores e líderes religiosos para analisar o andamento da pesquisa. No evento, apresentou-se o relatório parcial de atividade - "Perfil da Assistência Religiosa no Sistema Sócio-educativo do Rio de Janeiro".
Para esta fase inicial da pesquisa foram feitas entrevistas com os diretores das 24 unidades do DEGASE e com os representantes das instituições religiosas que atuam em cada unidade. Os números revelam que existem, atualmente, 34 instituições religiosas cadastradas no DEGASE que prestam assistência religiosa em sete unidades de internação. Nas 17 unidades de semi-liberdade são 24 instituições atuantes.
Os dados apontam também uma predominância de evangélicos e católicos no atendimento aos jovens. A Igreja Universal do Reino de Deus é a que tem maior atuação, estando presente em quase 80% de todas as unidades. A igreja católica tem a segunda maior representação, atuando em 12 unidades. E o conjunto das igrejas da Assembléia de Deus soma 11 atuações, ficando com a terceira maior representação. Só há um grupo espírita - Grupo Espírita Irmão Demétrio. E até o momento, nenhum representante das matrizes africanas atua nas unidades. Entre as atividades oferecidas por esses grupos estão: a leitura bíblica, orações, palestras, apresentações de peças teatrais, filmes e cânticos religiosos
O projeto, que tem conclusão prevista para junho de 2009, ainda tem outras etapas a cumprir. Está prevista a realização de um seminário para apresentar os resultados finais da pesquisa. Além disso, acontecerão ensaios fotográficos para registrar as atividades religiosas e a publicação de artigos a partir dos dados da pesquisa.
A pesquisa pretende, ainda, escutar os adolescentes em conflito com a lei para entender como eles lidam e o que buscam nas atividades oferecidas pelos religiosos. E se de alguma maneira essas atividades auxiliam no processo de ressocialização desses jovens.
A expectativas dos que atuam e acompanham a pesquisa é que de que as informações sejam utilizadas também para qualificar a assistência religiosa prestada, atendendo, principalmente as necessidades dos jovens. Por isso, pensa-se em capacitar assistentes religiosos e os agentes de disciplinas e técnicos, propondo novas metodologias de integração dos adolescentes e das diversas religiões atuantes no sistema. Para isso, serão organizados encontros interreligiosos para diálogo sobre Assistência Religiosas. A ideia é que, durante o diálogo, sejam identificados problemas comuns enfrentados pelas religiões atuantes no DEGASE, além de avaliar o impacto da oferta de tantas religiões na vida desses jovens.
Por Marília Assad colaboração de Pedro Simões (projetodegase@iser.org.br) Foto: Fábio Café
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Procuro aqui apresentar uma pequena síntese dos resultados mais importantes discutidos ao longo do livro, que em uma primeira versão foi a minha tese de doutorado. Assim, o que eu gostaria de ressaltar são os principais pontos tratados ao longo do livro e organizados em torno do que vou chamar das principais “revelações”, ou, dito de outra forma, do que revela este estudo sobre a peregrinação a Santiago.
Compreendo a peregrinação a Santiago enquanto um mito que, ao longo dos séculos, vem sendo continuamente “reinventado”. Entretanto, mais do que entendê-la como uma antiga tradição que teria resistido às mudanças, procurei destacar como este fenômeno social adquire uma multiplicidade de sentidos, cuja centralidade está na idéia da conversão de uma experiência religiosa individual em uma expressão coletiva de valores sociais fortemente marcada por fatores políticos, econômicos e sociais.
Em que pesem as diferenças estruturais dos períodos históricos que atravessaram a história da peregrinação a Santiago, que emerge no séc. IX, ainda hoje o movimento no qual ela se inscreve é um fenômeno sociológico singular. Desse ângulo, considerei fundamental analisar as redes de significados e de relações sociais tecidas em torno do Caminho, permanentemente ressignificadas, como um momento especial de construção simbólica de princípios e valores geradores de uma certa identidade social.
A partir dos anos 90, esta peregrinação ganha visibilidade no Brasil, particularmente com a publicação de mais de sessenta livros escritos sobre o assunto por brasileiros, da produção de vários sites, vídeos e programas de televisão e, também, da criação de duas Associações de Amigos do Caminho de Santiago no Brasil, com regionais em quase todas as grandes capitais do país que congregam um número significativo de pessoas que já fizeram e/ou desejam realizar a peregrinação. Estima-se hoje que mais de dez mil brasileiros realizaram a peregrinação na última década.
Na pesquisa utilizei diversas fontes e recursos visando compreender e interpretar os diferentes sentidos e motivações investidos no ritual da peregrinação. Em minha análise, adotei a perspectiva que entende a peregrinação como um “texto”, afastando-me do pressuposto essencialista de reduzi-la a um fenômeno empírico a ser descrito. Desta forma, procurei compreender os significados, crenças e valores produzidos no campo das reciprocidades, operando com as noções de percurso e identidade enquanto construções simbólicas, bem como indicando a fluidez de suas fronteiras.
Desta maneira busquei compreender como os peregrinos brasileiros interpretam o universo que denominam de Caminho, que valores e significados lhe conferem; que emoções lhe infundem e, se a experiência que vivenciam assume um sentido religioso ou não. Pude assim perceber que uma noção central permeava esse universo e que de certa forma passava a operar como uma idéia força, ou seja, a de que a peregrinação é vivenciada como uma transformação, sobretudo, pessoal. Idéia que emergia associada à metáfora do Caminho como uma jornada interior e exterior.
No caso da peregrinação a Santiago, temos um mito de fundação, de origem que, en
tre outras coisas, “sacraliza” um locus específico. Mas há também um conjunto de rituais, crenças e valores em disputa em torno da atualização daquela “invenção”, indicando os múltiplos aspectos - sagrados e profanos, de natureza privada e pública - que se articulam na emergência e na reprodução do movimento de peregrinação a Santiago de Compostela.
Desde a sua invenção o mito adquiriu fama mundial e crescente. O movimento de peregrinação e de culto aos restos do apóstolo estendeu-se por todo o Ocidente, embora enfrentando períodos de ascensão e declínio de acordo com os conflitos e guerras que atingiram aquela região da Europa.
Desta maneira, desde a sua origem o Caminho funcionou como catalizador de culturas, transmissor de idéias e promotor do encontro de povos e línguas, características que se acentuaram no século XX e pelas quais obteve, em 1993, da Unesco, o estatuto de patrimônio da humanidade. O que evidencia, como destaco a seguir, que a peregrinação a Santiago de Compostela sempre representou muito mais que um simples fenômeno religioso. Pois, ainda que se possa dizer que ela se constitui enquanto tal, ela está tão impregnada pela “mentalidade da época”, pelos objetivos e instrumentos de poder “profano” que não é possível compreender um sem a compreensão do outro. Este aspecto estabelece uma importante diferenciação entre os termos “peregrinação” e “caminho” ou “rota de peregrinação”: a primeira seria um ato individualizado e suscetível de ser classificado metodologicamente em função, por exemplo, das diversas motivações que o produzem. Já o “caminho de peregrinação” seria uma tradição coletiva de motivações individuais mediante a qual se unificam suas razões, seus sentidos e suas linhas de influência sobre os valores de toda a comunidade.
De acordo com essa perspectiva, que me foi apresentada pelo co-orientador de minha tese de doutorado, o professor Xose Luis Barreiro, da Universidade de Santiago de Compostela, não existe contradição alguma em afirmar que, a partir do século IX, uma grande corrente de fé moveu muitos peregrinos a visitar o túmulo do apóstolo Santiago e que a eleição de Compostela como meta universal deve-se, sobretudo, à sua posição estratégica para o reino de Astúrias e à organização geral do Império cristão propagada pelo papa e pelos poderes políticos do Império, na época de sua emergência. Desse ângulo, não seriam estritamente religiosas, mas também políticas, econômicas e sociais as razões pelas quais se potencializou a rota denominada jacobea, criando-se infra-estruturas viárias e assistenciais, que a dotaram de relativa segurança, oferecendo privilégios e abrigos a seus usuários e garantindo a liberdade de movimentos das pessoas que transitavam em seus espaços, numa época de fragmentação política dos grandes territórios. Ao adotar essa perspectiva, indiquei também que considero ser impossível e teoricamente improdutivo procurar compreender os diferentes sentidos de uma peregrinação, separando as motivações individuais dos peregrinos do contexto social mais amplo. Pois, ainda que a experiência seja única e intransferível, ela é fortemente informada e condicionada por fatores que a ultrapassam.
No contexto atual, considero que o revival da peregrinação compostelana, sobretudo a partir do final da década de oitenta, coincide e se articula com dois movimentos importantes: o do universo tipicamente contemporâneo da Nova Era e o da formação da Nova Europa. O primeiro movimento propicia e estimula a “reivenção” do Caminho como parte de um percurso literal e metafórico (enquanto processo de transformação pessoal e social) de busca de um novo sentido de vida. O segundo movimento deixa claro que, mais uma vez na história do Caminho, a confluência de fatores políticos, econômicos e culturais, leva a distintas agências (no caso, a Igreja Católica, o Governo da Espanha e a Comunidade Européia) a recorrerem ao poder simbólico da cosmologia jacobea para valorizar e ressignificar um projeto profano.
Para concluir, gostaria de destacar que o Caminho enquanto um fenômeno sociológico chama a atenção não apenas para a sua “multidimensionalidade”, mas também por sua capacidade de responder à pluralidade de demandas. Ou seja, por acomodar distintos significados e práticas em seu espaço ritual e, desta maneira, colocar os peregrinos diante de algo que se diferencia de uma unificação de discursos, no contexto de identidades contrastivas. Abrindo espaço para o cruzamento e a junção de domínios variados, permite repensar as dualidades. Assim, a principal força de atração do Caminho está assim em sua permanente "recriação" e "reinvenção", capaz de incorporar não só a diversidade do campo católico, e de ressignificá-lo, como também de responder a outras demandas religiosas ou não, de diferentes agentes e instituições, que o transformaram no símbolo máximo de comunhão e do encontro entre diferentes culturas. Por outro lado, a multiplicidade dos discursos em torno do Caminho é condição de sua própria existência. Acredito que é justamente tal possibilidade de compatibilizar diferenças e de responder a demandas diversas que torna o Caminho acolhedor e com abrangência internacional.
Em suma, o Caminho pode ser entendido como uma excelente metáfora de uma das novas condições da experiência espiritual, no início deste novo milênio: uma religiosidade ancorada em um ethos e em uma visão de mundo em que predominam as fontes morais como referência na construção de um novo tipo de subjetividade. Um processo interior onde aparentemente são abolidas as possíveis incongruências cognitivas, destacando-se um processo que valoriza e aposta na liberdade das experimentações, onde, ao invés de síntese, busca-se sempre novos arranjos que possam tornar, a juízo do “buscador”, a vida digna de ser vivida.
Texto da autora do livro. Contato: sandrasacarneiro@uol.com.br
Capa do livro: fonte site da editora (www.attar.com.br)
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O metodismo é uma das confissões religiosas protestantes que se inseriram no Brasil em decorrência da expansão colonial do mundo anglo-saxão, iniciada no século XIX, que elevou o movimento missionário à escala global. Assim como outras missões protestantes oriundas dos Estados Unidos, como a presbiteriana e a batista, a missão metodista chegou ao Brasil imbuída dos ideais civilizadores norte-americanos. Alimentados pelas ideologias do “destino manifesto” e da “civilização cristã” norte-americana, os metodistas pioneiros no país concebiam a sua missão tanto no sentido de propagar os seus valores religiosos como no de difundir na sociedade brasileira os valores culturais norte-americanos de liberdade, democracia, civilização e progresso. Para alcançar esse objetivo, eles utilizaram não apenas a evangelização direta, mas também a educação escolar, buscando, através dela, formar lideranças para atuar tanto no campo religioso como no político segundo os valores protestantes norte-americanos.
Após a primeira investida entre 1836 e 1841, a Igreja Metodista Episcopal do Sul dos Estados Unidos, a responsável pela implantação da maioria dos colégios da denominação no país, fixou-se oficialmente no Sudeste brasileiro a partir de 1876. Apoiados pelas elites liberais e progressistas da região, especialmente do Oeste de São Paulo e Zona da Mata, em Minas Gerais, as missionárias e missionários metodistas instalaram instituições de ensino de grande porte em várias cidades, como Piracicaba, Juiz de Fora, Petrópolis, Ribeirão Preto, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.
Essas elites regionais, impelidas pelo desejo de exercer e de perpetuar sua hegemonia em nível nacional, viam nos Estados Unidos o modelo político, econômico e cultural para a modernização e progresso do Brasil. Estando preocupadas com a formação das novas lideranças políticas e intelectuais, as elites liberais e progressistas do Sudeste passaram a questionar a prática educacional em vigor no Brasil, tida como inadequada para a consolidação da nova geração republicana e para a modernização do país, e a estimular as intervenções educativas consideradas inovadoras, tanto em relação ao ensino oficial quanto ao ensino católico. Se, por um lado, o apoio dos segmentos liberais das elites brasileiras contribuiu para a afirmação das instituições de ensino metodistas no país, por outro, a presença da Igreja Católica Romana impôs muitos obstáculos à sua expansão.
Convém ressaltar que o momento de implantação das instituições de ensino metodistas no setor educacional brasileiro coincide com dois importantes períodos da história da Igreja Católica no Brasil: o da romanização do catolicismo brasileiro, entre 1880 e 1920, e o da neocristandade, iniciado em 1916, atingindo seu apogeu entre 1930 e 1945. Em ambos os períodos, principalmente após a proclamação da República, as lideranças católicas procuraram combater as iniciativas metodistas no setor educativo, seja através da fundação de colégios católicos, seja por meio dos periódicos da Igreja e dos seus documentos oficiais. Os metodistas, buscando afirmar o valor do seu sistema educacional perante a opinião pública, procuraram reagir à ofensiva católica, ora por meio do seu órgão oficial, o Expositor Christão, ora através dos jornais produzidos por suas instituições de ensino e pela imprensa comum. No decorrer da Primeira República, as relações entre metodistas e católicos eram marcadas, portanto, por tensões.
Assim sendo, meu principal objetivo neste estudo foi investigar, no contexto da Primeira República brasileira, o desenvolvimento do projeto educacional da Igreja Metodista Episcopal do Sul na região Sudeste, enfocando, acima de tudo, as tensões com o catolicismo. Para empreender a análise, optei por privilegiar, como campo de investigação, a cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, focalizando, de modo especial, os conflitos gerados pelo estabelecimento do Colégio Americano Granbery no setor educacional juizforano. Além de consultar a literatura referente ao tema, procurei analisar jornais da Igreja Metodista Episcopal do Sul e da Igreja Católica Romana, documentos oficiais das duas Igrejas, bem como periódicos e documentos das suas instituições de ensino. Jornais da imprensa comum também ajudaram a compor o corpo documental do trabalho.
O conteúdo desses documentos indica que o desconforto causado nos meios eclesiásticos católicos pela presença metodista no setor educacional brasileiro de modo geral e juizforano de modo particular, não se devia simplesmente ao fato de que as instituições de ensino da Igreja Metodista Episcopal do Sul apresentavam-se como concorrentes no campo de educação. O temor que as lideranças católicas sentiam da concorrência no âmbito educacional devia-se principalmente ao fato de que, na sua visão, os colégios metodistas constituíam-se em veículos de propaganda dos valores religiosos protestantes norte-americanos, ou seja, em veículos de evangelização.
Não obstante as relações entre metodistas e católicos no âmbito educacional na Primeira República tenham sido marcadas, sobretudo, por tensões, houve ocasiões em que representantes das duas confissões religiosas colocaram-se lado a lado em defesa de causas sociais. Embora esses momentos de relativa aproximação fossem raros, eles chamam a atenção, dada a animosidade que caracterizava o seu relacionamento.
Texto elaborado pela autora da tese.
Contato: analuciacordeiro@uol.com.br
Foto: fonte: www.metodista.org
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No dia 9 de junho deste ano, o governo do estado do Rio de Janeiro, através da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, lançou um atendimento especial e pioneiro, em sua Ouvidoria, às vítimas de intolerância religiosa. Antes, as denúncias desta natureza eram encaminhadas para a Superintendência de Igualdade Racial. Porém, quando a Ouvidoria percebeu que as reclamações referentes aos casos de intolerância religiosa vinham crescendo, achou necessário estruturar um serviço que fosse além da função tradicional de escutar e encaminhar as denúncias.
O objetivo do novo serviço é reunir as denúncias em um banco de dados e realizar um mapeamento que deve ser compartilhado com pesquisadores e prefeituras do Estado. A partir das informações sistematizadas pela Ouvidoria, no Sistema Metropolitano de Acompanhamento de Denúncias (SMAD), será possível formular políticas públicas que visem reprimir os casos de violência envolvendo diferenças religiosas. Além disso, as vítimas contam também com um atendimento psicológico, quando a Ouvidoria percebe que há necessidade.
De acordo com Marco Fonseca, ouvidor da Secretaria de Estado de Direitos Humanos, as denúncias de intolerância religiosa indicam que o preconceito atinge indiscriminadamente protestantes, espíritas, judeus, ciganos, religiões de matrizes africanas e adeptos de outros credos.
- Esperamos que o serviço da Ouvidoria encoraje cada vez mais as pessoas a fazerem as denúncias, pois com esses dados pretendemos identificar os pontos de conflito para que o Estado e as prefeituras possam agir – diz o ouvidor.
As denúncias e reclamações podem ser feitas no telefone 2299-5351 ou pelo e-mail ouvidoria@social.rj.gov.br. Não é preciso se identificar.
Segundo Marco Fonseca, a classe média é a que mais utiliza o serviço. Para o ouvidor, isso se deve ao fato do serviço ser pago. Para ampliar o acesso à Ouvidoria, estuda-se a possibilidade de criar um serviço 0800, no próximo ano. Uma outra perspectiva de trabalho é criar estandes com atendentes em locais de muito movimento, como a Central do Brasil, para receber as denúncias.
Cartilha sobre intolerância religiosa
Uma outra medida do Estado do Rio de Janeiro referente a este tema partiu da Coordenadoria de Informação e Inteligência da Polícia Civil (Cinpol). No dia 21 de janeiro de 2009, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, será lançada uma cartilha sobre intolerância religiosa.
A cartilha foi idealizada pelo coronel Jorge da Silva, que atuou na Polícia Militar e elaborou-a para o Instituto de Segurança Pública. O lançamento da cartilha é resultado de um trabalho feito pela Cinpol em parceria com a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir).
Inicialmente, a cartilha será distribuída aos delegados e inspetores de todas as delegacias do Rio. O objetivo é conscientizar os policiais sobre os casos de preconceito religioso e orientá-los como melhor proceder em situações em que forem denunciadas, em ocorrências policiais, ações de discriminação religiosa.
De acordo com o chefe da Cinpol, o delegado Henrique Pessoa, as principais denúncias apresentam relação com agressões a pessoas de religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda.
- Queremos criar uma cultura na Polícia Civil de que o policial é agente do Estado. E se o Estado é laico, o policial deve se despir de suas crenças religiosas para atender qualquer cidadão e garantir que seu direito de liberdade religiosa seja garantido – diz o delegado.
Após distribuir a cartilha, a Polícia Civil deseja fazer um curso com todos os seus profissionais sobre os diferentes tipos de intolerância, com enfoque na intolerância religiosa..
Colaboração: Marília Assad
Imagem: Amorelli, 2006
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