26 abr. 2010 | Número 14
 
EDITORIAL

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Equipe:

Editor - Emerson Giumbelli

Composição - Paola Lins e Marília Assad

 

iserianas

Seminário "Plano Nacional de Direitos Humanos 3: descriminalização do aborto e simbolos religiosos em espaços públicos"

No dia dezessete de março de 2010, o ISER - Instituto de Estudos da Religião realizou um seminário para discutir o processo de elaboração do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos - PNDH3, assim como duas temáticas presentes no Programa e que têm provocado fortes reações na mídia brasileira: a garantia da laicidade do Estado a partir do impedimento de símbolos religiosos nos espaços públicos e a descriminalização do aborto e a garantia dos direitos sexuais e reprodutivos.

Estruturado em seis eixos básicos a partir dos quais são sugeridos objetivos estratégicos, diretrizes e ações programáticas, o Plano Nacional de Direitos Humanos, em sua terceira versão, e lançado no dia 21 de dezembro pelo presidente Lula e seus ministros, foi o resultado das resoluções aprovadas na 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, em dezembro de 2008, bem como de intenso processo participativo desenvolvido nos estados. O Plano está fundamentado nos seguintes eixos: Interação Democrática entre Estado e Sociedade Civil; Desenvolvimento e Direitos Humanos; Universalizar Direitos em um Contexto de Desigualdades; Segurança Pública, Acesso à Justiça e Combate à Violência; Educação e Cultura em Direitos Humanos e Direito à Memória e à Verdade.

A pesar do debate público mais amplo ter ocorrido entre os anos de 2007 a 2009 quando movimentos sociais, organizações da sociedade civil e membros do Estado se reuniram para construir o conteúdo do PNDH3, a mídia brasileira reclamou da ausência de discussões em torno de alguns pontos controvertidos. Dentre eles estariam a questão dos símbolos religiosos nos espaços públicos, a descriminalização do aborto, a regulamentação da lei de imprensa, a questão da reforma agrária, das investigações sobre o período da ditadura militar, entre outros. A cobertura parcial e incipiente da mídia brasileira inspirou o ISER a realizar um ciclo de debates a respeito de alguns pontos do PNDH3.

Nesse primeiro encontro, contamos com a presença da representante da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Bartira Nagado, apresentando, em linhas gerais, o processo de elaboração do PNDH3, seus objetivos e as principais conquistas em relação aos demais Programas. Para debater a respeito dos símbolos religiosos em locais públicos e a laicidade do Estado, convidamos o Prof. de Direito Constitucional da PUC-Rio, Fábio Leite. Sobre a descriminalização do aborto e ampliação dos direitos sexuais e reprodutivos, convidamos a advogada e coordenadora executiva da CEPIA - Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação, Leila Linhares. Mediando as intervenções dos palestrantes e o debate, contamos com a colaboradora do ISER e professora de Antropologia da UFF, Christina Vital.

Em sua fala, Bartira Nagado apresentou o processo de elaboração dos conteúdos do PNDH3, enfatizando a organização das mais de cinqüenta conferências nacionais e cento e trinta e sete encontros regionais que levantaram as diferentes demandas dos movimentos sociais e da sociedade civil para a elaboração dos conteúdos finais do Programa.
Leila Linhares lembra que apesar de todos os acordos internacionais assinados pelo Estado brasileiro e também dos compromissos assumidos nacionalmente no sentido de descriminalizar o aborto e ampliar os direitos sexuais e reprodutivos, os avanços concretos têm sido insuficientes. O PNDH3 constituiria uma grande força positiva nesse sentido, mas estaria sob o risco de enfraquecimento por limitações e ameaças acionadas por grupos religiosos, encabeçados pela Igreja Católica, na direção do governo brasileiro. Os reclames pela supressão de termos do PNDH3 como "descriminalização" referente ao aborto e "autonomização" da mulher para decidir sobre sua gravidez expressariam, mais uma vez, a tentativa de controle e esvaziamento dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Leila Linhares sinaliza, ainda, o risco que significa o tratamento do tema em ano de eleições já que nestes contextos a descriminalização do aborto torna-se moeda de troca.

Na sequência, Fábio Leite inicia sua fala comentando que o contexto de recepção política do PNDH3 não poderia deixar de ser controvertido, já que ele conjuga beneficiários muito diferentes em um mesmo programa, o que facilitaria a formação de uma oposição ampla, ou seja, uma coalização de veto. No mesmo sentido, um perigo inerente ao clamor pela laicidade sem um processo de reflexão, tal como aconteceria no Brasil, seria a configuração e fortalecimento de uma frente de oposição em defesa da presença pública da religião contra a iniciativa laica. Esta oposição é visível em episódios em que a sugestão de retirada de um símbolo religioso de um local público sem explicações, ou somente apelando para a "laicidade do Estado", frequentemente geram um movimento de apoiadores da presença do símbolo que passam a se articular e produzir argumentos que associam sua religião à tradição ou à cultura do país ou "da maioria". Para Fábio Leite é fundamental manter o debate em torno de casos específicos, analisados em profundidade, observando suas peculiaridades concretas em relação à legislação. Assim, casos como o dos crucifixos nos tribunais não deveriam ser tratados de modo equivalente ao dos monumentos públicos, como o do Cristo Redentor, por exemplo.

Mais importante do que defender a laicidade do Estado seria então qualificar as modalidades de parceria, de presença, de intervenção que associam Estado e religiões. Com isso, seria possível problematizar as diferenças entre os espaços públicos, como os tribunais, as escolas, as praças e o modo como as religiões aparecem, se em símbolos materiais, cultos, eventos, disciplinas ou até mesmo como patrimônio artístico, histórico e cultural. Tratar indistintamente, sob a rubrica da laicidade, fenômenos como a utilização de recursos públicos para a manutenção de Igrejas católicas barrocas e a contratação de professores para ministrar a disciplina de ensino religioso na rede estadual de ensino escamotearia pontos fundamentais do debate, tais como a criação de privilégios para os membros da religião associada ao Estado em detrimento dos excluídos, e o estabelecimento de canais de intolerância e de recusa da pluralidade religiosa. Finalmente, Fábio Leite lembra que a religiosidade não vai desaparecer dos espaços públicos porque ela faz parte da vida de muitas pessoas e sublinha que o problema da laicidade não é necessariamente a presença da religiosidade no espaço público, mas a ocupação exclusiva de uma única religião.

Após as falas dos palestrantes, diversos membros da sociedade civil fizeram algumas colocações a partir da temática mais ampla da construção do PNDH3, sobre o risco de não se efetivar a descriminalização do aborto a partir da criação deste importante documento público, assim como colocações a respeito da defesa dos direitos sociais e coletivos, do papel da mídia na condução do debate sobre os direitos humanos, entre outros. Algumas falas enfatizaram a força política de grupos religiosos, sobretudo a Igreja católica e alguns segmentos evangélicos, intervindo negativamente no processo de construção do PNDH3 especificamente no debate sobre a ampliação de direitos sexuais, reprodutivos e também da laicização do Estado.

 

Texto: Paola Lins de Oliveira, Marília Assad e Christina Vital

Imagem: Secretaria Especial de Direitos Humanos


vitrine

Religiões e Cidade: Rio de Janeiro e São Paulo

organizadores: Clara Mafra e Ronaldo de Almeida

Acaba de ser lançado o livro "Religiões e Cidades: Rio de Janeiro e São Paulo", organizado por Clara Mafra e Ronaldo Almeida. O livro faz parte da Coleção Antropologia Hoje, iniciativa do NAU - Núcleo de Antropologia Urbana da USP e da Editora Terceiro Nome com o propósito de divulgar ensaios, resultados de pesquisas, etnografias e propostas teoricomedotologicas da Antropologia voltados para a dinâmica cultural e os processos sociais contemporâneos.

Templos, igrejas, catedrais, terreiros e centros de ajuda, ao lado de manifestações como missas, bênçãos, búzios, descarregos e consultas astrológicas, recebem milhões de fiéis diariamente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Como é possível a convivência de tantos credos em meio à loucura metropolitana das duas maiores cidades brasileiras?

Essa pergunta é o tema central do livro Religiões e cidades - Rio de Janeiro e São Paulo, com textos de doze autores e organização de Clara Mafra e Ronaldo Almeida. Os textos estão distribuídos entre três grandes tópicos: Circuitos e segmentações, Sagrado no tempo e no espaço metropolitano, e Usos e gestão do espaço público. Todos abordam a relação entre o sagrado e o urbano, e, completando uma impecável análise antropológica, também trazem informações detalhadas em tabelas, gráficos e mapas.

"A partir da década de 1990 as religiões se impuseram como tema relevante para quem estuda o urbano no país", escrevem os organizadores, "pois, dentro de um leque amplo de recursos disponíveis, os habitantes das metrópoles tenderam a usar privilegiadamente os discursos e as práticas religiosas para se relacionar e expressar".

 

Texto produzido pela assessoria de imprensa da Editora Terceiro Nome

Imagem: Editora Terceiro Nome


laboratório

Os Fios do Trançado: um estudo antropológico sobre as práticas e as representações religiosas na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos no Rio de Janeiro.

Tese de Doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA), na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por Andréa Lúcia da Silva de Paiva (2009).


O objetivo da tese foi descrever e analisar práticas e representações dos devotos através de diversos objetos materiais. O trabalho de campo realizou-se em uma igreja negra e setecentista, no Centro do Rio de Janeiro. Tais objetos, expostos na referida igreja, em um museu e ritualmente celebrados em festividades, representam as relações entre devotos e santos mediando entre diversas categorias como: vivos e mortos, passado e presente, céu e terra, ricos e pobres, negros e brancos, sujeitos e objetos. Eles também refletem a relação tensa entre distintas modalidades religiosas: o catolicismo oficial, o catolicismo popular e as religiões afro-brasileiras em que a categoria nativa do "trançado" mostrou-se rentável para a análise do sistema simbólico e da identidade religiosa negra.

É trançado, sabe. Aqui tem uma energia muito grande.
(Fiel durante a festa de 13 de maio de 2006).

O trabalho teve como objetivo um estudo etnográfico sobre práticas e representações religiosas na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Rio de Janeiro. A pesquisa de campo, desenvolvida ao longo de quatro anos (2005 a 2008) com base em entrevistas, análise de documentos e observação participante, suscitou uma análise e descrição de categorias nativas que contribuíram para o entendimento das ações dos devotos. Dentre essas categorias, a noção do "trançado" trouxe a percepção nativa de como essas práticas religiosas estão articuladas.

Os cultos às coleções e aos objetos como o mausoléu da Princesa Isabel e a escultura do Escravo Desconhecido encontrados no Museu do Negro, localizado no segundo andar da igreja, conduziram à noção de "trançado" pensada como uma modalidade de categoria nativa capaz de descrever como um grupo de devotos se diferencia e se identifica simbolicamente com seus objetos de cultos favorecendo uma determinada forma de organização cultural e de sociabilidade em relação a outros grupos.

Nesse sentido, o museu se destacou como um dos cenários centrais para a observação das práticas religiosas. Com sua variedade de "objetos" (fotografias, imagens, quadros, esculturas, artefatos e documentos), ele favorece a existência de três narrativas classificatórias que irão compor a estrutura do trançado: as Narrativas Monárquicas (associadas à relação entre os fiéis e a memória da Princesa Isabel e de seus descendentes, além da memória do movimento abolicionista representada pelos objetos em exposição); as narrativas igualitárias (referentes ao discurso que emerge das trocas sociais e políticas com os movimentos sociais, sobretudo no que concerne à ascensão social do negro - podemos observá-las nos discursos nas coleções dos artistas e políticos negros, na imagem de Zumbi e de Anastácia, na escultura Mãe-África como nos demais objetos de torturas quando exposto no sentido de reforçar a luta por uma igualdade racial ou focar a escravidão como um período de injustiça e sofrimento do negro brasileiro); e as narrativas modernizantes (nas interações da irmandade com instituições públicas e privadas, que proporcionam um novo olhar sobre as crenças e práticas da irmandade). Nessa última narrativa é como se o grupo buscasse ressignificar a construção da cultura negra inserindo as suas ações religiosas em um outro tipo de lógica dinamizada pelo mercado e pelo reconhecimento histórico e social do grupo propondo medidas referidas a um ideal de museu e de associação religiosa negra. Essas três narrativas se apresentam nos espaços da igreja, nas trocas com o sagrado, envolvendo um jogo permanente de dádivas e contra-dádivas nas relações do devoto com seus "objetos" de culto.

O trabalho de campo favoreceu a percepção dessas narrativas analíticas não atuarem como excludente entre si como, por exemplo, mostrou a festividade no ano de 2008 em comemoração aos 200 anos da Chegada da Corte na igreja que proporcionou uma discussão étnica sobre as práticas devocionais. Para a compreensão dessa lógica do "trançado" também foi preciso destacar a rede de relações dos indivíduos presentes nesse espaço, os quais transitavam pelas três narrativas descritas: a "família imperial brasileira" (representada pelos descendentes da monarquia), a "família dos abolicionistas"; a presença de alguns membros de instituições a favor da monarquia que trabalham em parceria com a irmandade nos eventos culturais como a festa do 13 de Maio. Somaram-se ainda integrantes dos movimentos sociais relacionados à causa do negro; artistas como a Vó Maria, viúva do compositor Donga; mães e pais de santo, políticos como Abdias do Nascimento, Benedita da Silva e Jurema Batista; e artistas como Chica Xavier, Regina Casé e sua filha.

A noção de silêncio na igreja destacou-se como atitude tomada por muitos visitantes e organizadores do museu quanto à descrição oral de suas práticas religiosas nos permitindo pensar a noção do "segredo" que enquanto tabu nos aponta para a seguinte afirmativa: não há religião sem segredo assim como não temos a existência humana sem ele. A quebra do segredo pelas acusações é capaz de dinamizar a percepção de um jogo de conflitos em que estão presentes concepções distintas da noção de sagrado.

Dessa forma, essas narrativas foram capazes de revelar a tensa relação entre as diferentes modalidades de práticas e representações religiosas: o catolicismo oficial, o catolicismo popular e as religiões afro-brasileiras em que a categoria nativa do "trançado" pareceu rentável para o entendimento de um contexto social, institucional e do sistema simbólico que articula as redes de relações sociais, mágicas e religiosas na igreja. A pesquisa de campo permitiu desnaturalizar o uso de determinadas categorias as percebendo como mecanismos integrativos e ativos da relação simbólica entre os devotos e suas práticas de culto na igreja através dos objetos.

 

 


religiosamente

Mobilização social dos evangélicos nas chuvas no Rio de Janeiro

O Plural entrevista Clemir Fernandes colaborador do ISER e pastor da Primeira Igreja Batista do Rio Comprido sobre os trabalhos de assistência aos moradores do Morro dos Prazeres, afetados pelas fortes tempestades que caíram no Rio de Janeiro no início de abril.

 

Sabemos que o senhor não é natural do Rio de Janeiro. Conte-nos um pouco a sua história e como chegou a essa cidade?

Sou, como diz Tzvetan Todorov, um homem desenraizado. Nasci no Maranhão, onde vivi por 2 anos. Depois meus pais migraram para o então norte do Estado de Goiás, onde vivi dos 2 aos 18 anos. Esta região viraria o atual Estado do Tocantins. Vim para o Rio para estudar e aqui vivo desde então, isto é, dos 18 aos atuais 42 anos. Resumindo: moro no Rio já há mais da metade de minha existência, gosto da cidade, mas nem me sinto maranhense ou carioca. Minha alma é tocantinense.

Fale-nos um pouco da sua história com a sua religião. Já vem de família ou foi uma descoberta/escolha inteiramente sua?

Minha formação religiosa, por influência de minha mãe, é protestante. Meu pai, nominalmente católico, converteu-se ao protestantismo quando eu tinha 7 anos de idade. Fui batizado na igreja de minha mãe, presbiteriana, quando era criança. Mas com a conversão de meu pai, numa igreja batista, passei a freqüentar a igreja batista. Por opção pessoal e até em contrariedade à linhagem familiar de minha mãe, que se mantinha tradicionalmente como presbiteriana, fui batizado numa igreja batista com 17 anos de idade. Esta é minha identidade religiosa.

Há quanto tempo o senhor é pastor? Sempre esteve como pastor da mesma igreja?

Fui ordenado no final de 1989, após o curso de bacharel em Teologia, quando tinha 22 anos de idade. Logo, sou pastor há 20 anos, embora nem sempre assumindo diretamente uma igreja local, mas atuando em outras áreas, como o magistério teológico e a produção de revistas de estudos bíblicos. Após ser ordenado atuei por 10 anos como pastor auxiliar, numa igreja batista no subúrbio do Rio (Guadalupe). A Primeira Igreja Batista do Rio Comprido, que assumi em julho de 2009, é minha primeira experiência como pastor titular de uma igreja. Mas já cooperava esporadicamente com esta igreja desde 2006.


Qual é a relação da Primeira Igreja Batista do Rio Comprido com a comunidade na qual está localizada?

A Primeira Igreja Batista do Rio Comprido, que foi fundada há 56 anos, atua no contexto dos morros do Rio Comprido e Santa Teresa (Prazeres). É uma igreja que já teve fases diferentes em sua atuação, com serviços sociais diversos, por exemplo, no apoio a crianças, na distribuição de cestas de alimentos, distribuição de roupas etc. É uma igreja pequena, mas ativa na relação com a comunidade.


No inicio de abril, houve uma grande tempestade no Rio de Janeiro, que afetou mais gravemente alguns bairros, como foi o caso do Rio Comprido. No Morro dos Prazeres, pessoas morreram e muitas ficaram desabrigadas. Como está a situação no bairro, principalmente, no Morro dos Prazeres?

Sim, foi uma tragédia como há muito não se via na comunidade. Ainda no mês de março havia ocorrido queda de barreira, com a morte de mulheres e crianças, além de outros feridos. E a partir das chuvas do dia 5 de abril, a tragédia maior, como bem noticiou a grande imprensa. Dezenas de pessoas morreram soterradas pela avalanche de terra que desceu, soterrando crianças, idosos e pessoas em geral.
A tristeza é grande na comunidade, pois como foram muitas mortes, todo mundo tem alguma relação - de parentesco, amizade ou conhecimento - com os que morreram. Este foi o maior problema. Mas tem ainda aqueles que sobreviveram, mas perderam suas casas e seus pertences. A casa de uma pessoa é o espaço sua segurança pessoal e também a privacidade de sua identidade. Mas muitos perderam este espaço. Outros ainda estão com as casas condenadas pela Defesa Civil, muitas não podendo retornar para seus lares. É um contexto de muita angústia. Que se amplia sempre que tem previsão de chuvas. As pessoas estão nervosas e psicologicamente bastante abaladas com toda essa tragédia. E com medo de novos desabamentos.
Tem famílias que foram para casa de outros parentes, o que resolve um problema imediato de sobrevivência, mas causa muitos outros, inclusive de conflitos nos relacionamentos. Há tensão e nervosismo também por causa de ações e informações do poder público. Às vezes falta energia elétrica e água e as pessoas vêm nisso uma pressão do poder público para as pessoas deixarem a área. Há um clima de desconfiança, pois correm informações que há interesses especulativos em muitas áreas, já que se trata de uma região bonita e central da cidade.

Em geral, igrejas e associações de bairro desempenham um importante papel de apoio em situações de tragédia. De que maneira a Primeira Igreja Batista do Rio Comprido tem se organizado e mobilizado para ajudar essas pessoas?


Desde a tragédia de março a igreja já manifestara pessoalmente sua solidariedade e decidiu abrir seu templo, caso fosse necessário, para abrigar pessoas com esta necessidade.
Quando aconteceu a tragédia do início de abril, um grupo de irmãos da igreja saiu dando apoio aos necessitados e informando que o templo estava à disposição para receber e abrigar as pessoas. A Prefeitura levou muita gente para abrigos, como colégios, mas oferecemos nosso pequeno espaço para os que desejassem. A partir da noite do dia 6 começamos a receber pessoas da comunidade, que preferiam estar ali até por ser mais próximo das pessoas de suas relações. Famílias inteiras, desde adultos e crianças, hospedaram-se no templo e nas salas de educação religiosa da igreja. E a igreja se mobilizou oferecendo, além da estrutura dos espaços, refeição pronta (quentinhas), além de café da manhã e lanche da noite. Inicialmente conseguimos colchões e cobertores entre o pessoal da igreja, até que o serviço de assistência social da prefeitura oferecesse novos colchões para as pessoas e fraldas descartáveis para crianças.
As pessoas da igreja faziam revezamento para socorrer e atender as pessoas abrigadas, tendo sempre alguém na escala de serviço.
Conseguimos roupas, cobertores, leite e outros recursos materiais e distribuímos com a comunidade. Foi um período difícil, que trouxe muito trabalho e até complicações para pessoas da igreja, mas nos esmeramos para oferecer o melhor dentro de nossas possibilidades.

Os trabalhos de assistência oferecidos pela igreja, nesse caso, têm sido feito com ajuda de outras organizações, pessoas voluntárias ou do poder público?


A alimentação pronta foi uma doação integral da igreja, mas contamos com o poder público na doação de colchões e fraldas. Outras igrejas e pessoas voluntárias ofereceram roupas, calçados, além de também colchões, cobertores etc. Nossas redes sociais de solidariedade atuaram com muita generosidade. E muitas vezes encaminhamos pessoas que queriam doar para outras áreas necessitadas da cidade. Pois o Morro dos Prazeres e o Morro do Bumba, em Niterói, mais noticiados pela imprensa, ficaram mais visados, mas vários outros bairros do Rio e cidades da Região Metropolitana sofreram e tiveram perdas, inclusive de vidas por causa das chuvas.

O que há de mais urgente a ser feito para auxiliar as pessoas afetadas pelas chuvas no Morro dos Prazeres?


Quando conversamos com elas, o que mais precisam, dizem, é voltar para suas casas ou terem suas casas de volta. Muita gente perdeu móveis, eletrodomésticos, enfim, mas elas repetem sempre: queremos mesmo uma casa pra morar. As outras coisas a gente vai depois lutar para conseguir.
A importância da casa, como espaço de segurança pessoal e identidade social, é fundamental para a manutenção e continuidade da existência das pessoas. Há tempos perdemos a capacidade de se adaptar ao nomadismo.
Com a ajuda de nossas redes de apoio social e do poder público, temos suprido as necessidades básicas das pessoas. E elas continuam a procurar a igreja quando precisam de roupa pessoal, de cobertores, de roupa de cama, colchões, alimentos, fraldas etc.

Há algo que o senhor gostaria de destacar no trabalho que tem sido desenvolvido pela Primeira Igreja Batista do Rio Comprido?

Uma coisa interessante que fizemos foi uma celebração religiosa, de lamento, luta e esperança, uma semana após a tragédia, dando força e nosso apoio também afetivo, solidário e espiritual às famílias da comunidade.

 

Para mais informações sobre outras igrejas ou organizações evangélicas que estão auxiliando os desabrigados:
www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=2&registro=1269

 


divulgue-se

Mesa Redonda "Materialidades da Devoção: experiências etnográficas recentes"

Coordenação: Prof. Dra. Renata Menezes

O objetivo da mesa é reunir mestres e doutores que apresentarão as pesquisas que realizaram recentemente, sublinhando a importância que os objetos nelas assumiram e discutindo as perspectivas teóricas e metodológicas que empregaram na análise.

Participantes:
Andréa Paiva, doutora pelo PPGSA/ IFCS/UFRJ, 2009, que falará sobre o Museu do Negro;
Daniel Bitter, doutor pelo PPGSA/IFCS/UFRJ, 2008, professor da UFF, que falará sobre as Folias de Reis no Complexo da Mangueira, RJ.
Luzimar Pereira da Silva, doutor pelo PPGSA/IFCS/UFRJ, 2009, que falará sobre as Folias de Reis em Urucuia, MG.
Maria Paula Miller Duarte, mestra pelo PPGAS/MN/UFRJ, 2006; doutoranda no mesmo programa, que falará sobre a devoção à Madona de Capocolona na Calábria.
Paola Lins de Oliveira, mestra pelo PPGSA/IFCS/UFRJ, 2009, doutoranda no mesmo programa, que falará sobre o terço católico.

Data: 29/04/2010
Hora: 14h
Local: Museu Nacional (Quinta da Boa Vista), na sala de reuniões Castro Faria


Mesa redonda "Ditadura, Movimentos Sociais e Religião"

Participantes:
Prof. Dr. Ivo Lesbaupin - sociólogo (UFRJ)
Profa. Dra. Lucia Grinberg - historiadora (Unirio)

Data: 13/05/2010
Local: Unirio (Auditório Paulo Freire, Auditório Pasteur, 458 - Urca)
Início às 17h com a exibição de Batismo de sangue (filme de Helvécio Ratton)

 


 

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