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EDITORIAL
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Equipe:
Editor - Emerson Giumbelli
Composição - Paola Lins e Marília Assad
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ISER e Novo DEGASE promovem seminário sobre Assistência Religiosa
A assistência religiosa oferecida aos adolescentes internos ou semi-internos do Novo Departamento Geral das Ações Socioeducativas (Degase) é majoritariamente evangélica: nas 22 unidades onde há assistência religiosa, há pelo menos uma igreja protestante/evangélica (ou pentecostal) atuando, sendo que em 19 o serviço é prestado por representantes da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd).
Essa preponderância foi identificada na pesquisa "Perfil da Assistência Religiosa no Sistema Socioeducativo do Rio de Janeiro", desenvolvida pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) entre setembro de 2008 e junho de 2009. O estudo foi solicitado pela própria direção geral do Degase, que percebeu a urgência em definir uma proposta pedagógica e estabelecer regras claras para lidar com a questão religiosa nas suas 24 unidades.
A pesquisa foi coordenada pelo sociólogo Pedro Simões, que analisou o material fornecido pela instituição e as dezenas de entrevistas feitas com diretores e assistentes religiosos. Por questões jurídicas e de outras ordens, os adolescentes não foram consultados. O estudo foi divulgado no seminário "Assistência Religiosa: desafios para o contexto socioeducativo no Rio de Janeiro", realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Apesar de a classificação do Censo-2000 subdividir o campo protestante no Brasil em igrejas evangélicas e igrejas evangélicas pentecostais, o Iser optou por utilizar genericamente a denominação protestante/evangélico para configuração deste conjunto de Igrejas.
De acordo com a pesquisa, há uma média de três instituições religiosas atuando em cada unidade do Degase. Em todas, há pelo menos uma igreja protestante/evangélica, sendo que em oito, elas atuam sem a presença de outras vertentes religiosas. A Igreja Católica está presente em 14 unidades, e em dez delas divide espaço com igrejas protestantes/evangélicas. Nas outras quatro, também atua um grupo espírita. As instituições protestantes/evangélicas conduzem quase 74% das atividades religiosas realizadas no Degase. A Igreja Católica, embora atue de forma organizada, não abrange mais que 20% do universo. A presença de grupos espíritas e ecumênicos não chega a 10% do conjunto de atividades. A pesquisa constatou que a participação diferenciada da Iurd se deve à sua grande penetração nas Unidades de Semiliberdade - quase o dobro das outras igrejas pentecostais e da Igreja Católica. A Iurd foi fundada e é comandada pelo Bispo Macedo, dono da Rede Record de Televisão, entre outros empreendimentos. Ele é investigado por desvio e lavagem de dinheiro de fiéis e formação de quadrilha. Nas quatro unidades de semiliberdade em que a Igreja Católica implantou o trabalho de assistência religiosa, já atuam uma ou mais igrejas protestantes/evangélicas.
A participação da Igreja Católica foi uma iniciativa da Arquidiocese do Rio de Janeiro sem relação com a atuação de outros grupos católicos, vinculados a outras paróquias e arquidioceses fora da cidade do Rio de Janeiro. Assim, há relatos de tentativas de implementação de trabalhos católicos nas Unidades do Degase fora do município do Rio de Janeiro que fizeram o mesmo caminho institucional que as demais instituições religiosas.
O único grupo espírita que demonstrou interesse em realizar trabalhos nas Unidades do Degase foi o Grupo Espírita Irmão Demétrios (Geid), numa iniciativa independente. O grupo tem uma identidade sincrética, que associa o espiritismo kardecista com ensinamentos orientais, baseados em Sai Baba.
Segundo os diretores de unidade, os grupos religiosos afrobrasileiros não participam das atividades de assistência religiosa simplesmente por não terem demandado espaço de atuação, como os evangélicos, católicos e espíritas.
A grande maioria (praticamente 90%) dos trabalhos de implantação da assistência religiosa ocorreu depois da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e tem sido realizada, paulatinamente, com forte predomínio das Igrejas Protestantes/Evangélicas.
Liberdade de crença prevista em lei
A provisão de assistência religiosa aos adolescentes internados em Unidades do Sistema Sócio-Educativo é uma prerrogativa legal, prevista no ECA e no Sistema Nacional de Atendimento Sócio-Educativo (Sinase). As ações, porém, devem respeitar a liberdade de crença de cada indivíduo e não pode ser obrigatória.
Na introdução do estudo, Pedro Simões ressalta, entretanto, que os princípios que justificam as ações de assistência religiosa ainda não estão regulamentados, o que deixa em aberto uma série de questões: o que significa prestar assistência religiosa? Que práticas podem ser classificadas como assistência religiosa? Realizar um culto, uma missa, dentro da unidade, ou apenas fazer uma oração e dar conselhos? Qual é o espaço adequado para as práticas de religiosidade? Operacionalmente, como se organiza a presença, por exemplo, de muitos assistentes religiosos numa unidade de internação? Os jovens devem pedir a presença de um membro de sua instituição religiosa ou as instituições religiosas devem realizar trabalhos contínuos nas unidades?
"Na ausência de regulamentação de como deve operar a assistência religiosa no cotidiano das Unidades Sócio-Educativas, a interpretação da lei está sujeita a diferentes entendimentos e interpretações, principalmente se levarmos em conta que alguns grupos religiosos têm mais influência política. Depende de diretores de Unidades a aceitação ou não de determinados grupos e na forma de condução dos trabalhos. Isso significa que há um campo amplo de intervenções baseado puramente naquilo que diretores, técnicos e agentes de disciplina acham ser o melhor ou acreditam ser o ‘bom senso'. Desta forma, as crenças e valores individuais ganham prevalência e passam a regular a assistência religiosa", explica.
Para Simões, que é professor da Escola de Serviço Social da UFRJ, as atividades de assistência religiosa devem ser conduzidas de acordo com os princípios de um Estado democrático e laico, por agentes qualificados e comprometidos com a viabilização dos interesses e direitos dos adolescentes, segundo os princípios sócioeducativos.
Assistentes pouco conhecem as leis
Perguntas nas entrevistas buscaram avaliar o conhecimento dos assistentes religiosos sobre as diretrizes sobre assistência religiosa contidas no ECA, de 1999, e no Sinase, de 2006. Os católicos são os que mais conhecem ambas as legislações, seguidos dos espíritas e protestantes. Entretanto, há um contingente muito significativo de assistentes religiosos que desconhecem o Sinase em todos os grupos religiosos. Quase 75% dos assistentes religiosos disseram conhecer o ECA, mas somente 23% afirmaram conhecer o Sinase.
O Sinase inclui a assistência religiosa no patamar dos direitos humanos, em vez de classificá-la como um direito social. Ou seja, além de um direito legal, é uma questão humanitária. O Sinase também preconiza a necessidade de se ter um local próprio para as atividades de assistência religiosa e prevê o desenvolvimento de projetos arquitetônicos adequados para este fim. Estes dois aspectos são desconhecidos por quase 82% dos protestantes/evangélicos, 60% dos católicos e 75% dos espíritas (três casos).
Embora o pouco conhecimento do Sinase fosse semelhante entre os grupos religiosos, o mesmo não ocorreu com o ECA. Os protestantes/evangélicos são os únicos que, em quase 35% dos casos, desconhecem o ECA. Este percentual é o mesmo para todas as denominações protestantes/evangélicas sem distinção.
Apenas entre os protestantes/evangélicos há assistentes religiosos que desconhecem ambas as legislações. "A completa ausência de conhecimento da legislação demonstra que para 35% dos protestantes/evangélicos a ação religiosa não guarda relação com o direito à assistência religiosa. São ações que se referem, exclusivamente, ao entendimento dos assistentes religiosos da necessidade de levarem suas religiões aos adolescentes. Trata-se, portanto, de uma ação puramente religiosa", explica Simões.
Fórum para mudanças
No seminário na Uerj, estiveram presentes representantes do governo estadual, da Subsecretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, direção do Novo Degase, da de diretores das unidades do Novo Degase, assistentes religiosos e especialistas nos temas da criança e do adolescente, religião, criminologia e sistema socioeducativo.
"A expectativa é que se abra um novo campo de investigações e ações políticas em relação à assistência religiosa no contexto socioeducativo do Rio de Janeiro", afirmou Pedro Strozenberg, secretário executivo do Iser. Ele convidou os presentes para participarem de um fórum para refazer o estudo a partir das experiências de cada um. "A pesquisa é um ponto de partida, não de chegada", enfatizou.
Mesas realizadas de manhã e de tarde discutiram os principais pontos levantados pelo estudo e questões metodológicas da pesquisa.
O sociólogo Doriam Borges, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), observou que, por não conhecerem os estatutos e leis voltados para os adolescentes, os assistentes não entendem as suas necessidades e direitos. "É preciso desenvolver a discussão e a qualificação dos assistentes religiosos para que a definição de assistência religiosa fique mais clara", disse. Ele recomenda a criação de um material didático para servir de base para o trabalho dos assistentes, independente da religião.
De acordo com Borges, diversos estudos mostram que quanto maior a religiosidade, menor o comportamento delinquente. O pesquisador ressaltou, entretanto, que assistência religiosa não deve ser considerada um instrumento de pacificação. "Ela deve atender à necessidade do indivíduo de atividade espiritual para exercer a sua fé e a sua crença", disse.
Ovelhas desgarradas
Para a cientista social Silvia Regina Alves Fernandes, professora da Uerj, a religião como direito social é uma conquista, e a sua implementação no Degase demanda a tríade planejamento, formação e monitoramento, com avaliação continuada.
Ela criticou a pesquisa em dois pontos: não traçar o perfil dos jovens e suas demandas e tratar protestantes e evangélicos de vertentes diferentes como uma coisa só. "Dependendo da religião, a abordagem é diferente. A Universal é a igreja que está mais presente no Degase, e o seu arrojo é diferente do protestante luterano ou batista. Devemos estar atentos para a diversidade interna quando se fala de evangélico/protestante", afirmou.
Segundo a socióloga, a disputas pelo mercado religioso se expressam dentro das unidades do Degase. "Todo mundo quer reintegrar as ovelhas desgarradas ao seu rebanho. Um jogo de interesses diversos se articulam independente do interesse dos jovens", atestou. Para ela, um olhar de fora precisa atuar, com a formação de uma rede de parcerias, para qualificar a assistência religiosa. "As igrejas são bem vindas, mas não da forma que vêm atuando", arrematou.
O estudo é contundente nesse mérito: "Os adolescentes estão expostos a diferentes grupos religiosos, cada um acreditando ser capaz de transformá-los a partir dos seus princípios, trabalhos e crenças. Além disso, cada grupo em particular, por acreditar que seu credo é o melhor e o verdadeiro a ser seguido, e capaz de mobilizar a transformação dos jovens, tenta mobilizá-los na adesão a este 'novo' código".
De acordo com a diretora da Divisão de Serviço Social do Degase, a discussão deve ser sempre interdisciplinar. Ela contou que além do convênio com o Iser para a realização da pesquisa, segundo ela, "um marco para a mudança de atuação", o Degase criou um grupo de trabalho com profissionais de outras áreas, além do serviço social.
"Grupos religiosos realizando práticas religiosas não atende mais as necessidades. É necessária uma mudança de paradigma nessa área", disse Marise, convidando a todos para o debate sobre a implementação de uma política de assistente religiosa na instituição.
A diretora da Divisão de Estudos, Estágio e Pesquisa do novo Degase, Janaína Abdalla, frisou que o adolescente tem direito à assistência religiosa, mas desde que assim o deseje. Pedro Simões reconheceu que não falar com os jovens foi uma lacuna na pesquisa. Segundo ele, o prazo era curto e é preciso ter autorização judicial para ouvir menores, o que aumenta os custos e cria problemas operacionais.
Valores humanos
Presente ao evento ao lado de outros assistentes religiosos, a farmacêutica Janaína Dória Líbano Soares, espírita voluntária em unidades do Degase há 10 anos, explicou ao Comunidade Segura que a religião pode ser o único caminho para que os jovens percebam que em um momento perderam o equilíbrio, mas podem retornar à vida socializada se assim quiserem.
"Às vezes nem falamos de religião, mas de valores humanos. Fazemos oficinas que trazem conceitos de empreendedorismo, trabalho e outras atividades que podem de fato ajudá-los a se ressocializar. Levamos atividades dinâmicas e pessoas que já passaram por dependência química, com as quais eles possam se identificar", esclareceu Janaína, que integra o Grupo Espírita Irmão Demétrios.
Vídeo e projeto arquitetônico
Após os debates, foi exibido o vídeo "Mas Deus te Quer Sorrindo", de Fernando Velasco e Pedro Lerner, em que adolescentes expressam sua percepção a respeito das atividades religiosas a que estão submetidos. Para Pedro Simões e Pedro Strozemberg, a realização do vídeo compensa um pouco a falta de entrevistas com os jovens. "
A voz dos adolescentes precisa ser ouvida pelos pesquisadores e viabilizada pelas instituições. Fizemos uma escuta no Iser com 10 adolescentes para fazer o vídeo. Havia 12 agentes de disciplina", contou Pedro Strozemberg.
Também foi exposto um projeto arquitetônico para um espaço inter-religioso para as unidades do Degase, desenvolvido pela antropóloga Paola Oliveira e a arquiteta Maria Isabel Palmeiro. Elas se nortearam pela ideia de que o Estado é laico, e portanto o projeto deveria servir a qualquer religião.
Por fim, foi lançada e distribuída a 64ª edição da revista Comunicações do Iser, com a publicação Pescadores de Homens, que reúne e discute os resultados da pesquisa.
Texto: Marina Lemle, jornalista do portal Comunidade Segura: http://www.comunidadesegura.org/pt-br/MATERIA-Degase-liberdade-religiosa-ou-evangelizacao.
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Debates do NER, ano 10, número 16, 2009 Transnacionalização religiosa
A revista Debates do NER, publicação do Núcleo de Estudos da Religião (NER) do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), traz em seu último número uma série de artigos sobre a temática da transnacionalização religiosa. Com aportes teóricos diferenciados, os autores apresentam resultados de pesquisas realizadas sobre o trânsito religioso envolvendo nações latinoamericanas, assim como sobre o fluxo de religiões provenientes do Brasil em direção à Africa e à Europa. Temas-chave como o da globalização são explorados em suas interrelações com os diversos movimentos de circulação de atores e instituições religiosas.
Editorial - Debates do NER, ano 10, número 16, 2009
Transnacionalização religiosa
O presente número de Debates do NER versa sobre processos de transnacionalização que envolvem religiões e áreas culturais diferentes, localizadas em diversas partes do mundo. As diferenças apresentadas pelos textos são expressas, sumariamente, em termos da formalidade e informalidade das organizações ou agentes religiosos envolvidos, de sua relação com movimentos populacionais (presença ou não de migrações) e as compreensões teóricas do que sejam as evidentes porosidades que se apresentam atualmente entre campos religiosos de distintos países. Cabe aqui dizer que nossa intenção ao organizar esse número não foi fechar a discussão teórica sobre globalização, transnacionalização e religião, mas abrir espaço para a exposição de dados empíricos e interpretações que partem das experiências de campo de cada um dos autores.
Ao início e ao fim dessa edição, temos artigos que permitem alçar um debate mais refinado a partir de dados coletados em amplas pesquisas. O artigo de Renée de la Torre permite ao leitor uma visão ampla sobre a discussão teórica entre globalização e transnacionalização, pleiteando a necessidade de recorrer às leituras locais desses processos mundializados. Ao fim, Ari Pedro Oro apresenta um balanço comparativo entre a transnacionalização religiosa de pentecostais e afro-brasileiros ao Sul da América Latina, incorporando dados empíricos que são expostos no próprio artigo de Oro e também por alguns de seus orientandos, nesse mesmo volume.
Entre esses dois textos, ao princípio e ao final, temos uma gama de experiências etnográficas que vai de grandes instituições (como as mega-igrejas nigerianas descritas por knibbe, as argentinas analisadas por Algranti ou a IURD, por Tadvald), passando pela expansão do budismo na Argentina (Carini). O artigo de Eduardo Gabriel, único dessa edição que tem por objeto um grupo católico, revela permeabilidades e, principalmente, resistências ao projeto de introdução da Renovação Carismática Católica brasileira em Portugal. Por outro lado, o texto de Plaideau apresenta a introdução do Racionalismo Cristão (de origem brasileira) em Cabo Verde, e algumas razões possíveis para seu relativo sucesso. A partir daí, pode-se ler o artigo de Tadvald como uma preparação historiográfica aos artigos de Mauro Meirelles, Daniel Francisco de Bem e Daniel Alves, que traçam comparações e lançam hipóteses acerca dos processos de transnacionalização pentecostal e afro-religiosa, e sua implicação na ação política desses grupos. Os quatro últimos artigos inserem-se num projeto de pesquisa aprovado e financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que viabilizou essa edição de Debates do NER. Texto: Ari Pedro Oro, Daniel Alves, Mauro Meirelles, Daniel Francisco de Bem Imagem: NER
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"O Mundo Espírita Virtual: navegando nas malhas da Religião, da Ciência e da Tecnologia"
Tese de Doutorado de Alberto Calil Junior defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (2009), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ/PPCIS).
Na tese O Mundo Espírita Virtual: navegando nas malhas da Religião, da Ciência e da Tecnologia, Alberto Calil explora os percursos do espiritismo brasileiro nos ambientes virtuais. Nesta etnografia do ciberespaço, o autor acompanha alguns debates controversos envolvendo a doutrina espírita em sites, blogs e outras redes, revelando que as novas tecnologias da comunicação são freqüentemente incorporadas como parte da cosmologia espírita. Assim, sua perspectiva de análise sócio-antropológica lança uma luz sobre as múltiplas imbricações entre os universos da religião, ciência e tecnologia.
O ano era o de 1996, mês de outubro. Em uma tarde de domingo um grupo de adeptos do espiritismo participavam de uma discussão fervorosa que havia começado com uma provocação de um dos presentes à sala que insistia em perguntar se o espiritismo deveria ser considerado uma ciência ou uma religião. Em se tratando dos ambientes espíritas, tal situação não trazia nada de novo, pelo contrário, a literatura sócio-antropólogica sobre o espiritismo é unânime em apontar estas duas categorias, bem como a tensão existente entre elas, como essenciais para a compreensão das práticas espíritas. Entretanto, a novidade da situação acima descrita estava no ambiente em que ela aconteceu; no nascente ciberespaço.
Naquele ano, a internet e tudo a ela relacionado ainda eram desconhecidas da maior parte da população brasileira. Fazia apenas um ano que a Embratel havia liberado a comercialização do acesso, até então restrito a algumas organizações governamentais. Em uma época, que já parece tão longínqua devido ao boom tecnológico dos últimos anos, poucos poderiam vislumbrar o impacto e as transformações que esta nova tecnologia da comunicação traria para os nossos cotidianos. A partir desta liberação, foram necessários apenas alguns meses para que a novidade se espalhasse pelas camadas médias urbanas. Desde então, uma parcela crescente da população brasileira vem se tornando partícipe de um processo de virtualização do mundo, para o qual autores como Pierre Levy (1996, 2000) e Manuel Castells (1999, 2003), dentre outros, vêm apontando em seus escritos.
Neste sentido, chama atenção a crescente presença de grupos religiosos espalhados pelos ambientes virtuais. Dentre estes, os espíritas estiveram na vanguarda. Em se tratando de uma religião cuja maioria dos adeptos é de brasileiros, é interessante notar que em 1992, portanto três anos antes da liberação do acesso à internet no Brasil, os espíritas já marcavam a sua presença na internet. Boletins eletrônicos, salas de bate-papo, comunidades virtuais, redes sociais, estudos on-line com voz, enfim, muitos dos ambientes, das tecnologias e dos recursos disponíveis através do ciberespaço foram ocupados e apropriados pelos espíritas. Apropriação esta que não se deu por acaso. Mais do que um espaço para divulgação dos postulados espíritas, as novas tecnologias da comunicação são incorporadas como parte da cosmologia espírita. Dessa forma, o ciberespaço, mais especificamente, o mundo espírita virtual, constitui-se como o principal lócus da investigação. A realização de uma etnografia no mundo virtual, em particular do ponto de vista dos espíritas, possibilitou a reflexão sobre a suposta oposição entre o real e o virtual, tão presente em algumas leituras sobre o ciberespaço e sobre o espiritismo.
Ao longo desses últimos 15 anos os ambientes espíritas têm se espalhado pelo ciberespaço e tal como ocorreu naquela tarde de domingo, as controvérsias vêm se proliferando pelo mundo espírita virtual. A circulação pelos ambientes espíritas na internet, acompanhando alguns dos seus participantes favoreceu a análise da conformação do mundo espírita virtual, bem como das práticas dos espíritas a partir da apropriação de determinadas categorias, que eram parte constituinte dos referidos debates: Ciência, Tecnologia e Religião. Mais do que buscar definir o espiritismo como uma ciência, como uma religião ou como aquilo que permite a aliança entre ambas, o acompanhamento das controvérsias - como a que coloca em cheque uma das narrativas presentes na cosmologia espírita sobre a migração de espíritos de outro planeta para a Terra, conhecida como "Os Exilados de Capela" ou a que questiona a existência das colônias espirituais, que se tornaram conhecidas entre os espíritas brasileiros através de um dos best-sellers da literatura espírita cujo título é o nome de uma colônia, "Nosso Lar" - conduziu a análise para uma abordagem em que os diferentes programas de verdade que surgem no mundo espírita virtual são valorizados.
Paralelamente, a realização de uma etnografia no ciberespaço trouxe para o centro da investigação alguns problemas metodológicos. Tradicionalmente, na antropologia o lugar, o território surge como uma fonte identitária. Entretanto, se o encontro com a alteridade ocorre em um "mundo virtual" como falar em localidade? Com quais "pressupostos metodológicos" vamos a campo? A que nos referimos quando falamos em uma "etnografia virtual"? Inspirado por autores como Arjun Appadurai (2001) e Marc Augé (2001), que problematizam as relações entre a construção de identidades e o território, mostro as nuances dos processos de territorialização e de desterritorialização que conformam a construção do mundo espírita virtual, bem como de suas fronteiras. A construção da identidade pelos espíritas passa não somente pelo território, mas também por questões próprias a cosmologia espírita, como as noções de reencarnação e da emancipação da alma, através das quais os espíritas re-configuram a sua relação com o tempo e com o espaço. Muitos dos espíritas estabeleciam relações estreitas com lugares nunca vistos ou visitados e com passados remotos, conformando uma espécie de "espiritoscape", na medida em que teríamos um movimento, não de corpos, mas no qual o espírito, emancipado, estabelecia novas ou reforçava antigas relações tanto com outras pessoas quanto com lugares, re-desenhando as fronteiras espaciais e temporais. Este "espiritoscape" e as paisagens e movimentos dele decorrentes eram facilitados a partir dos processos de desterritorialização e de re-territorialização engendrados na conformação do mundo espírita virtual que estaria submetido à virtualidade espírita de compressão do tempo e do espaço, pela capacidade inerente ao espírito de juntar presente, passado e futuro. Referências Bibliográficas APPADURAI, Arjun. Après le colonialisme: les conséquences culturelles de la globalisation. Paris: Payot, 2001. AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. 2. ed. Campinas: Papirus, 2001. CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 2.ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999. (A era da informação: economia, sociedade e cultura; v.1). LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 2000. ______. O que é o virtual? São Paulo: Ed. 34, 1996.
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Redes de jovens evangélicos promovem direitos para diminuição da desigualdade no país
Iniciativas de grupos de jovens ligados a diferentes tradições do meio evangélico brasileiro apontam para um movimento de reflexão e ação, que parte da fé, com o objetivo de transformar a sociedade. Pode-se citar como exemplos a participação de organizações evangélicas no Conselho Nacional de Juventude (Conjuve), as campanhas de defesa de direitos da Rede FALE e ações como a "Carta Compromisso da RENAS-Jovem", elaborada durante o IV Encontro da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS), a Carta de Rio Bonito, elaborada pela Juventude Batista do Estado do Rio de Janeiro (Juberj), que repudiam a injustiça social no país e propõem ação e reflexão sobre cristianismo e realidade brasileira.
O processo de redemocratização do país pode ser apontado como um dos fatores que criaram condições favoráveis a essa eminente efervescência no meio evangélico. Contudo, possivelmente, a principal motivação para estes grupos juvenis buscarem na fé respostas transformadoras para a realidade é a observação direta do que está à volta. Ao andar pelas ruas de centros urbanos, basta um olhar atento para perceber a realidade que pesquisas e estatísticas revelam: o Brasil é um país marcado pela desigualdade e injustiça sociais.
O Relatório de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (Pnud) de 2007/ 2008 aponta que o território nacional abriga índices compatíveis com a Europa e, ao mesmo tempo, comparáveis a localidades consideradas como as de maior pobreza do planeta. Um dos indicadores que compõem o índice de educação, o analfabetismo, é ilustrativo. Neste quesito, o estado de Alagoas empata com o país africano de Madagascar que ocupa a 143ª posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Por outro lado, a região metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, possui a mais alta taxa de alfabetização do Brasil, 96,5% e, se fosse um país independente, apareceria no ranking à frente de Portugal.
Na paisagem urbana, a desigualdade é óbvia. Mas a injustiça social no país reflete-se também no campo. Enquanto poucos são proprietários de grandes extensões de terra, um grande número de famílias prosseguem sem espaço para implementação do cultivo de subsistência e para geração de renda. Segundo levantamento publicado pela Folha (Folha explica - A Reforma Agrária), entre os anos de 2002 e 2003, o número de famílias acampadas à espera de um lote cresceu de 60 para 200 mil. No mesmo período, as ocupações saltaram de 103 para 222 e os assassinatos ocorridos no contexto de conflito fundiário passaram de 20 para 42.
Não à toa, cerca de 80 líderes da Juberj divulgaram a Carta de Rio Bonito, cujo conteúdo inclui uma lista "Repudiamos" e outra "Nos comprometemos a". Na primeira, aparece em primeiro lugar "a desigualdade marcante no Brasil, porque fere os princípios do reino de Deus". A lista toca questões como corrupção, trabalho infantil e escravo, violência, meio ambiente, direitos constitucionais, individualismo, alienação causada pela distorção do próprio evangelho. Os compromissos incluem a oração, comportamento individual e coletivo ético, além de diversas formas de ação e luta tanto nas localidades e comunidades em que os jovens estão inseridos quanto nas questões políticas e sociais amplas. A carta encerra-se com a citação de Romanos, capítulo 14, versículo 17: "pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo".
De modo semelhante, a "Carta Compromisso" da RENAS-Jovem e as campanhas de defesa de direitos promovidas pela Rede FALE, remetem à necessidade de envolvimento da juventude evangélica com temas específicos. A primeira afirma a responsabilidade "da juventude como agente de mudanças e transformações sociais para a promoção da justiça, no combate a desigualdade econômica, social, de classe, raça e gênero", e se propõe a "participar das instâncias de decisão e formulação de políticas públicas de/para/com juventude" como meio para atingir estes fins. A Rede FALE, por sua vez, trabalha com ações ainda mais específicas, mobilizando campanhas de pressão popular para envio de cartões postais a autoridades, chamados "Cartões Ore & Envie", que informam, sugerem ações e motivos de oração sobre o tema tratado. Além disso, o cartão possui uma parte destacável que é uma carta endereçada a uma autoridade envolvida no tema da campanha.
A atuação de jovens evangélicos da Rede FALE em Marabá (PA)
Em 2009, a Rede FALE mobilizou pessoas e grupos de todo o país para orar e agir em prol da melhoria de condições de vida de cerca de 200 mil pessoas que moram na cidade de Marabá (PA) - na região norte do Brasil. Envolvidos há três anos em uma campanha por saneamento ambiental no país, os jovens da Rede FALE decidiram concentrar esforços para a melhoria de uma localidade. A cidade escolhida foi Marabá, e a campanha FALE por Saneamento Ambiental em Marabá foi lançada em janeiro, na própria cidade - simultaneamente ao Fórum Social Mundial Amazônico, realizado em Belém - com o intuito de impactar o município através de reuniões com as lideranças políticas e religiosas do local. Além de promover a solidariedade e união por uma causa específica, o objetivo da campanha foi sensibilizar os evangélicos para o contexto social e, assim, despertar outras mobilizações regionais.
Lobby e educação ambiental
Além dos cartões postais, a Rede promoveu atividades de conscientização, mídia, formação de grupos locais e pressão popular (lobby) com autoridades. Em março, membros da Rede FALE tiveram uma audiência com um dos senadores representantes do Estado do Pará no Congresso Nacional Brasileiro. Durante o encontro com a articuladora Nacional, Kharyna Monteiro, e com o coordenador de Campanha, Carlos Eduardo Fernandes, o senador Flecha Ribeiro assinou o cartão Ore&Envie e comprometeu-se a apoiar a luta por saneamento na cidade de Marabá.
"O senador firmou apoio à campanha e, em ato político, assinou um dos cartões que requer à Companhia Vale do Rio Doce investimentos em projetos de educação ambiental. Ele ainda se apresentou como mediador entre as entidades", disse Carlos Eduardo, apontando os resultados da audiência.
Fórum Social Mundial
A juventude evangélica marcou presença também no Fórum Social Mundial 2009, que ocorreu no final de janeiro, em Belém, estado do Pará. Jovens de todo o país ligados a entidades e igrejas evangélicas promoveram três mesas de debate e o Culto Público por Paz e Justiça. Entre os palestrantes estiveram a senadora Marina Silva, Dom Maurício Andrade, do Conselho Latino Americano de Igrejas (CLAI), Pedro Strozemberg, secretário executivo do Instituto de Estudos da Religião (ISER), e o teólogo e filósofo Ariovaldo Ramos. As mesas abordaram os seguintes temas: juventude, fé e participação política; políticas públicas, organizações religiosas e defesa de direitos; e saneamento ambiental. Cerca de mil pessoas participaram dos quatro eventos evangélicos dentro do Fórum, que contou ainda com atividades evangelísticas de igrejas da cidade e jovens de outras regiões, como o grupo da Avalanche que permaneceu no acampamento para, segundo a liderança do movimento, "levar a paz de Cristo ao evento".
Texto: Priscila Vieira Imagem: Rede Fale
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