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EDITORIAL
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Equipe:
Editor - Emerson Giumbelli
Composição - Paola Lins e Marília Assad
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Revista Religião e Sociedade, volume 29, número 1
O novo número de Religião e Sociedade (volume 29, número 1) está disponível no portal do SciELO (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issues&pid=0100-8587&lng=pt&nrm=iso) e acaba de ser lançado em versão impressa. A maior parte dos artigos traz discussões em torno da temática das performances rituais experimentadas em contextos brasileiros e latinoamericanos mais amplos, tanto de uma perspectiva histórica quanto etnográfica antropológica. O número conta ainda com artigos sobre missões indígenas e conversões.
Encenando o invisível: a noção de pessoa e de subjetividade em ritos medinúnicos e performances de "auto-ajuda" Sandra Jacqueline Stoll
La meditación em la Luz Sai Baba como performance ritual: acceso corpóreo-experiencial a Dios Rodolfo Puglisi
La estructuracion ritual del cuerpo, la experiencia y la intersubjetividad em la practica del budismo zen argentino Catón Eduardo Carini
A teatralização do sagrado Islâmico: a palavra, a voz e o gesto Francirosy Ferreira
Una ignorancia sagrada: aprendiendo a no saber bailar tango en Buenos Aires María Julia Carozzi
Santos e devotos no Império Ultramarino Português Beatriz Catão Cruz Santos
Celebrando São Besso, ou o que Robert Hertz e a Escola Francesa de Sociologia ainda têm a nos dizer sobre festas, rituais e simbolismo Renata Menezes
Conversão, com versões: a respeito de modelos de conversão religiosa Gabriel Banaggia
Do trabalho missionário para se salvar uma nação: um estudo dos sucessos missionários Jayne Hunger Collevatti
Resenhas Antonio Herculano Lopes (org.). Religião e performance ou as performances das religiões brasileiras Renata Gonçalves
Francisco Salatiel de Alencar Barbosa. O Joaseiro Celeste. Tempo e paisagem na devoção ao Padre Cícero Roberto Marques
Jeanne Favret-Saada. Comment produire une crise moundiale avec douze petits dessins. Paola Lins de Oliveira
Editorial
A noção de ritual tem sido para a antropologia um modo profícuo de articular a reflexão sobre a natureza simbólica do comportamento e da ação humanos. Formulada e reformulada de múltiplas maneiras, ela acompanha a gênese da disciplina e descortina um elenco de questões críticas para o conjunto das ciências humanas e sociais: como se relacionam, no amplo agregado de comportamentos que denominamos rituais, linguagem, pensamento e ação; experiência e eficácia; comunicação, dramatização e expressão; performance e teatralização? Nas últimas décadas, em especial, esse campo de estudos ampliou-se imensamente através de múltiplas conexões interdisciplinares, cheias de matizes e nuances conceituais, com o estímulo das noções de performance, de corporalidade, de narratividade entre outras, ao lado de uma retomada crítica das teorias clássicas sobre o tema. Este número da revista Religião e Sociedade traz a público um conjunto de textos expressivos dos desdobramentos e potencialidades desse campo de estudos, enfocando em especial os temas da corporalidade e das performances rituais e seus correlatos.
Dois textos clássicos de Marcel Mauss, que desdobram e aprofundam o tema durkeimiano da eficácia simbólica, balizam o alcance dos problemas enfrentados. Em "O efeito físico no indivíduo da idéia de morte sugerida pela coletividade" (Sociologia e Antropologia. Cosac &Naify, 2003 [1926]), explorando as relações entre psicologia e sociologia, Mauss chamava a atenção para um tipo específico de morte: aquela causada de modo abrupto simplesmente pelo fato de os indivíduos em questão acreditarem que iam morrer. Dizia-nos então: "(: 349) A influência do social sobre o físico conta [nesse caso] com uma mediação psíquica evidente; é a própria pessoa que se destrói, e o ato é inconsciente." Como esse exemplo deixa perceber, a mediação psíquica é também uma mediação corporal, e a relevância sociológica dessa outra mediação, também muitas vezes inconsciente ou inarticulada, e igualmente crítica, foi esboçada por Mauss em "As técnicas do corpo" (idem [1934]) entendidas como verdadeiras "montagens fisio-psico-sociológicas de séries de atos". Por sinal, ao fim desse texto, ao mencionar os estudos de Marcel Granet sobre o taoísmo, Mauss nos dizia "No meu entender, no fundo de todos os estados místicos há técnicas de corpo que não foram estudadas, e que foram perfeitamente estudadas pela China e pela Índia desde épocas muito remotas. (...) Penso que há necessariamente meios biológicos de entrar em ‘comunicação com o Deus'." (: 422).
Se no caso da morte por sugestão coletiva são sempre representações sociais que atuam sobre o psiquismo humano, vale observar que a concepção de psiquismo com a qual Mauss opera abrange claramente a dimensão corporal e, vice-versa, a concepção de corporalidade enfatizada na discussão das técnicas corporais integra a almejada noção de "homem total" com a qual se vislumbra a apreensão da pessoa como um feixe integrado e simultâneo de múltiplas dimensões.
Os estudos do comportamento ritual sempre nos falaram de uma dimensão muito concreta e encarnada da experiência social - uma humanidade prenhe de limites e conflitos, em processo de mudança e cheia de desejos de transcendência e permanência. Com os ritos, afinal, estamos, para usar uma boa expressão de Merleau Ponty ("O Olho e o Espírito". Coleção Os Pensadores. Abril Cultural, 1980), em campos de presença corporal.
Na atualidade, as noções de corporalidade e de performance em especial, ao buscarem desfazer, ou re-equacionar os dualismos mente/corpo, representações e práticas, experiência e simbolização, têm servido para o alargamento de horizontes e renovação desse campo de estudos. Ao percorrerem variadas formas de experiência de contato com o sagrado - teatro mediúnico, bailado, meditação, oração, culto e devoção (e ainda a conversão), os textos aqui reunidos trazem com suas pesquisas e etnografias aportes instigantes a esse amplo debate.
Em "Encenando o invisível: a noção de pessoa e de subjetividade em ritos mediúnicos e performances de ‘auto-ajuda'", Sandra Stoll, discute o teatro ritual de auto-ajuda criado pelo médium Luiz Antonio Gasparetto na cidade de São Paulo. Ao expressar-se através de elaborada produção cênica de natureza almejadamente teatral, o exercício da mediunidade, que tem por referência central a matriz religiosa espírita kardecista, ganha aqui os significados inusitados que constituem o centro da análise empreendida. Stoll examina as inovações na surpreendente performance ritual da mediunidade atualizada pelo médium/ator/personagem e detém-se na discussão da noção da pessoa encenada e evocada nos dramas apresentados com a marcante interpelação da platéia feminina. Desvendam-se assim experiências de subjetivação e de subjetividade que, mantendo laços frouxos com o universo religioso de referência, transitam decididamente rumo aos ideais e valores da sociedade de consumo.
Com pesquisas realizadas na Argentina, "La meditación en La Luz Sai Baba como performance ritual: acceso corpóreo-experiencial a Dios", de Rodolfo Puglisi e "La estructuración ritual del cuerpo, la experiencia y la intersubjetividad en la practica del budismo zen argentino", de Catón Eduardo Carini, discutem a experiência da meditação como prática ritual cuja eficácia trata-se de desvendar. A discussão da corporalidade e das performances rituais são recursos decisivos em ambos os casos. A análise de Puglisi nos descreve os passos da experiência da meditação. Num segundo momento, discute aspectos do pensamento cartesiano, como uma expressão das chamadas concepções dualistas predominantes no Ocidente, mostrando as diferenças e afinidades existentes entre estas últimas e as concepções associadas a Sai Baba. Já Carini traz também à baila algumas questões weberianas, ao indagar sobre os modos (incluindo certas tecnologias espirituais) pelos quais se produzem as disposições psicofísicas apropriadas a esses rituais. Partindo do exame da sensação e da interpretação da dor, e enfatizando a dimensão coletiva da experiência dos grupos nos quais ocorrem as práticas da meditação, este autor sugere que a pedagogia zen promove a introjeção e a prática de distintas modalidades somáticas de atenção, reeducando assim a atenção de cada praticante sobre seu próprio corpo. Puglisi enfatiza em sua análise a corporalidade da experiência ritual vivida por seus adeptos como intensa experiência espiritual e Carini focaliza a dimensão de (re)construção de subjetividades da meditação zen entendida como prática ritual eficaz.
Francirosy Ferreira, em "A teatralização do sagrado islâmico: a palavra, a voz e o gesto", com pesquisa entre muçulmanos em São Paulo e São Bernardo do Campo, recorre também à antropologia da performance e às formulações de Paul Zumthor, para examinar em detalhe a dimensão criativa e expressiva dos gestos e da voz na oração islâmica - a salat - na qual o corpo como um todo é o veículo de comunicação entre o fiel e seu Deus.
O artigo de María Julia Carozzi "Uma ignorância sagrada: aprendiendo a no saber bailar tango em Buenos Aires" enfoca de modo original e divertido o ambiente do "tango milonguero" em Buenos Aires, sobretudo os cursos em que se aprende a dançá-lo. Nesse ambiente, é forte a idéia de que as mulheres apenas precisam seguir os passos do parceiro masculino. Carozzi dedica-se então a entender a aquisição dessa competência performática que passa por uma desatenção seletiva - dançar sem precisar sabê-lo fazer. Aqui os estudos de performance articulam-se a referências ao interacionismo simbólico, conclamados para explorar uma dimensão recorrente em discussões antropológicas no campo da religião: a dialética entre o que se revela e o que se oculta. O resultado é uma análise que adentra, sem desvendá-lo, o segredo público do saber não saber dançar, em uma situação em que a dimensão de gênero é fundamental.
"Santos e devotos no Império Ultramarino Português", de Beatriz Catão, nos traz, em primeira mão, o exame da coleção de vilancicos de São Gonçalo de Amarante, que integram a Coleção Barbosa Machado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Vilancicos, nos informa Catão, são um gênero retórico poético de fins do medievo integrante das devoções aos santos católicos. Para a autora, a coleção examinada é indício da presença ativa do santo na sociedade colonial brasileira dos começos do século XVIII. Através de cuidadosa contextualização e análise dessa preciosa coleção, em diálogo com as ciências sociais - em especial com os estudos das festas e das devoções -, a historiadora nos convida a uma incursão à devoção a São Gonçalo Amarante. Os vilancicos analisados louvam, em especial, os milagres da vida do santo fazendo-os equivaler às assombrosas maravilhas do mundo antigo. Revelam também as características festivas e lúdicas associadas a esse simpático santo que, entre misereres e aleluias, sempre escolhe as últimas como forma predileta de louvor.
Renata Menezes recupera um texto pouco freqüentado, publicado originalmente em 1913, de um autor que conhecemos por seus vínculos com a chamada Escola Sociológica Francesa. Trata-se da análise que Robert Hertz realizou acerca da festa de São Besso, em uma cidade dos Alpes italianos. Renata segue passo-a-passo essa análise e reflete sobre um possível diálogo entre os caminhos seguidos por Hertz e o campo dos estudos sobre festas religiosas. Sua contribuição para nossa reflexão recai especialmente sobre as dimensões que são privilegiadas na observação de um ritual. Hertz exercita as premissas durkheimianas da representação social eficaz e do culto a um grupo social, mas, para além disso, também nos traz a festa como um conjunto complexo de facetas e interpretações.
Os artigos que encerram este número de Religião e Sociedade tratam de conversão religiosa e podem ser aparentados ao bloco temático principal. O artigo de Gabriel Banaggia é uma reflexão teórica acerca da relação entre conceitos de conversão e modelos de mudança cultural. Para realizá-la, apóia-se em diferentes relatos etnográficos versando, em especial, sobre conversão religiosa de populações indígenas. É exatamente sobre a experiência de certas populações indígenas acerca do trabalho missionário que o artigo de Jayne Hunger Collevatti se debruça. No seu caso, trata-se da empresa de catequese e civilização realizada por missionários franciscanos entre os índios Munduruku (sul do Pará), desde o início do século XX. Os dois artigos compartilham referências e se apresentam como contribuições para um tema perene no campo de estudos da religião.
Em relação ao tema da performance ritual, sobre o qual trata também uma das três resenhas que encerram este número de Religião e Sociedade, cabe ainda fazer uma observação em função da notável diversidade de objetos, situações e universos por ele cobertos, como da ampla gama de escolhas teóricas - tal como demonstrado pelos artigos aqui publicados. Trata-se de uma prova de que temos aí, mais do que propriamente um tema, um enfoque ou uma ênfase analítica que permite visões novas, inclusive sobre materiais anterior ou alternativamente explorados, e a convivência entre elaborações recentes no campo da performance e/ou da corporalidade e visões bem estabelecidas no estudo da religião.
Texto: Maria Laura Cavalcanti e Emerson Giumbelli
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O filme acompanha a trajetória de três devotos de São Jorge ao longo dos meses de preparação para o 23 de Abril, dia do Santo. Dona Ana luta para organizar as barracas da festa. Seu Jorge precisa manter a ordem na Igreja. Helinho se confronta com os seus orixás. A relação de cada um deles com o evento revela o universo da devoção ao santo na cidade do Rio de Janeiro.
Uma festa para Jorge acompanha a trajetória de três devotos de São Jorge ao longo dos meses de preparação para o 23 de Abril, dia do Santo. Dona Ana, 60 anos, é quem tradicionalmente organiza as barracas de comidas e bebidas que ocupam as ruas durante a festa. Seu Jorge, com quase 80 anos, ministro da Irmandade, administra com mão de ferro todos os preparativos e luta para manter a ordem dentro da Igreja. Helinho, sambista, motorista de táxi e umbandista, se prepara para receber suas entidades protetoras e pedir aos santos dias melhores. A relação de cada um dos personagens com o evento, que leva, anualmente, em torno de 140 mil pessoas à Igreja de São Jorge no centro da cidade, revela o universo da devoção ao Santo Guerreiro no Rio de Janeiro. Uma festa para Jorge é um documentário de 52 minutos, dirigido por Isabel Joffily e Rita Toledo e produzido por José Joffily para a Série DOCTV IV, da TV Brasil.
O filme tem início no Carnaval, em fevereiro. Dona Ana já se prepara para a festa de São Jorge, que acontecerá em abril, pois é ela quem deve organizar os outros barraqueiros e camelôs que montam suas barracas no exterior da Igreja de São Jorge. Negra, umbandista e filha de Ogum, Dona Ana é uma mulher batalhadora, que está sempre encontrando maneiras de trabalhar e garantir sua sobrevivência. O filme vai acompanhar a jornada de Dona Ana em busca das autorizações e apoios que precisa angariar para fazer a festa.
Uma das pessoas que Dona Ana vai procurar é Seu Jorge, pois há 40 anos ele organiza a festa que acontece dentro da Igreja. Decidido e rigoroso, Seu Jorge se orgulha de comandar a festa e de ser espécie de guardião da grande estátua de São Jorge que existe na Igreja. Talvez, mais do que isso, Seu Jorge acredite ser o guardião do próprio santo, não admitindo, por exemplo, o sincretismo com as religiões afro-brasileiras.
Como Dona Ana, seu Jorge é vaidoso, e a todo momento busca conduzir não só a festa, mas o próprio filme. Mas enquanto Seu Jorge personifica a "ordem", Dona Ana, pela própria natureza de seu trabalho de camelô, está sempre "se virando" com os instrumentos que tem à mão - os "contatos" na prefeitura e as "amizades" de gente poderosa - para conseguir o que quer. Guiado pelos personagens, o filme explora os espaços de "dentro" e "fora" da Igreja de São Jorge, revelando o lado de "dentro" como espaço tradicional do culto católico e o lado de "fora" como local em que a festa acontece em clima de descontração, "profano", ligado ao samba e aos cultos de religiões afro-brasileiras.
Como contraponto à "dualidade" entre Ana e Jorge, o filme traz o personagem Helinho, taxista e compositor de samba, de aproximadamente 45 anos. Criado em uma família católica, ele se tornou umbandista pois começou a "receber" entidades que até então desconhecia. Atualmente, freqüenta um terreiro de umbanda e vai às missas da Igreja do Centro. Helinho também organiza, há oito anos, uma feijoada para São Jorge no dia 23 de abril. Sem muitos recursos financeiros, mas imbuído de muita fé, ele sempre "dá um jeito" de realizar a festa em homenagem ao santo. "Malandro" e trabalhador, Helinho vive as dificuldades do sambista comum, que luta para sustentar sua família sem deixar de lado a vida no samba.
Observando o cotidiano de seus personagens, o filme aborda a devoção a São Jorge explorando contrastes, dilemas e ambigüidades. O universo explorado diz respeito à fé e à devoção, aspectos da experiência humana que não comportam explicações. A idéia, portanto, é apresentar a visão que os devotos têm e reconstroem, a todo momento, do santo e de sua imagem. "Sagrado" e "profano", "formal" e "informal", "público" e "privado" aparecem como dimensões complementares e inseparáveis, que acabam por revelar o universo da devoção ao Santo no Rio de Janeiro.
Texto, produzido por Rita Toledo, é um press release para a imprensa.
Imagem: produção do filme
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A categoria fetiche emergiu no encontro colonial afro-europeu e foi usada no discurso acerca das religiões "primitivas" para referir-se a objetos estranhos ao pensamento ocidental. Oposta às idéias de idolatria e representação, foi conceito central no vocabulário sobre a alteridade, sobretudo na denúncia da "ilusão religiosa", pois ajudaria a explicar a materialidade bruta que marcaria os cultos africanos. A dissertação acompanha o trajeto da idéia de fetiche - da conceitualização no iluminismo às críticas da antropologia modernista, passando pela cristalização no positivismo e evolucionismo e pelas apropriações marxistas e psicanalíticas. Por fim, volta-se à contemporânea reavaliação da categoria enquanto instrumento analítico, anunciada em obras que se propõem a pensar no estatuto ontológico de objetos magico-religiosos (africanos ou não).
O conceito de fetiche (e sua forma sufixada, fetichismo) evoca uma miríade de sentidos. Hoje o vemos aplicado às mais diversas áreas de atividade humana - sexualidade, arte, economia etc - aparecendo muitas vezes como uma espécie de coringa para lidar temas tão diversos quanto a auto-ilusão, a materialidade e a idiopatia. Para dizer o mínimo, fetiche hoje é uma peça mal definida do jargão acadêmico, um emaranhado conceitual ambíguo. Isto ao mesmo tempo se deve a (e é resultado de) uma biografia algo singular, a qual tentei apreender na minha dissertação.
Posto de maneira muito simples, o termo fetiche surge quando a Europa se interessa pelas ditas "religiões primitivas". Denotava inicialmente certos objetos vistos como dotados de poder sobrenatural por populações da África ocidental, e posteriormente também objetos de alhures vistos como similares. Fetichismo seria a doutrina ou culto baseado no "modo de pensamento" daqueles que atribuem poder sobrenatural (e agência e intencionalidade) a objetos inanimados. Conceitos de grande importância em teorias do séc. XVIII ao XIX, eles caíram em desuso por volta da década de 1920 por serem considerados ao mesmo tempo etnocêntricos (frutos de um mal-entendido colonialista) e muito amplos (apontavam para coisas demais). Na antropologia, durante décadas o emprego do termo fetiche foi visto com maus olhos. Ironicamente, na mesma época, suas transposições para o campo da economia (por Marx) e da sexualidade (por Binet e Freud) ganharam destaque e força tamanhas que chegaram a eclipsar a ligação do conceito com a história da reflexão ocidental sobre a alteridade religiosa. Apenas a partir de 1970, e muito paulatinamente, esta idéia começa a ser revivida em um movimento ainda inacabado: diversos autores de inclinações teóricas distintas têm se dedicado a retrabalhar o "problema do fetiche", ainda que nem sempre tendo como objetivo a revitalização da categoria.
Cartografar este disperso fenômeno teórico contemporâneo foi a principal preocupação de meu trabalho. Porém, para fazê-lo, foi necessário se deter um pouco na história do fetiche, pois, como afirma William Pietz - principal referência atual sobre o tema - tal conceito é radicalmente histórico: está entranhado em uma problemática constituída no seu contexto de emergência. Ou seja, os principais temas do discurso sobre o fetiche, que atravessam os séculos e chegam nas teorias de hoje, estão dados já no encontro colonial afro-europeu, na Guiné dos sécs. XV a XVII, quando populações nativas de um lado e europeus católicos e protestantes do outro se valem do neologismo fetiche para pensar nos objetos que ali circulavam, traduzidos e reavaliados a todo tempo.
O primeiro destes temas é a materialidade irredutível destes objetos: sua novidade, aos olhos europeus, era que eles eram opostos à idéia de ídolo, isto é, eram opostos à idéia de um objeto que representa um falso deus ou ser espiritual: os objetos africanos chamados de fetiches não representavam uma divindade, eles de alguma forma eram os deuses-objetos, ou, no mínimo, presentificavam espíritos, eram a habitação material de seres sobrenaturais. Um tema que daí segue é o da eficácia, isto é, a capacidade destes objetos de atingirem efeitos tangíveis, concretos, como provocar ou curar males físicos. Além disso, os fetiches seriam capazes de estabelecer conexões, articulando elementos heterogêneos: materiais de diversas ordens (terra, ossos, sangue, metal), desejos, saberes, narrativas, pessoas. Isto se liga a outro tema fundamental no discurso sobre fetiche: a aptidão destes objetos de incorporar diferentes formas de valores - o que evoca o problema da não-universalidade e da origem do valor social dos objetos materiais. Tais temas - atados a problemas mais gerais da teologia cristã e do ideário iluminista que desembarcaram na costa oeste da África - atravessam os escritos dos viajantes que descrevem a Guiné, como Willem Bosman; depois dos filósofos que teorizaram o fetiche, como Charles de Brosses e Auguste Comte; e finalmente dos antropólogos evolucionistas, que buscaram encaixar em algum ponto de sua história conjectural a religião "brutalmente materialista", "incapaz de figuração" e "não transcendente" dos negros.
O papel eminentemente acusatório da idéia de fetiche nestas teorias - que são parte de um movimento mais amplo de denuncia da "ilusão religiosa" - foi em parte o que levou a categoria a certo opróbrio teórico no séc. XX, e foi o que levou recentemente Bruno Latour a trabalhar a dimensão crítica do fetiche. Para o autor, a acusação de fetichismo é o modelo da denúncia crítica moderna que divide o mundo entre saberes e crenças; ciência e superstição; objetos realmente eficazes (tecnológicos, por exemplo) e objetos estéreis, que só possuem um poder ilusório, na mente de seus usuários; entre fatos e fetiches.
Latour se vale da categoria fetiche em uma argumentação a favor da agência dos objetos, tema que tem ganhado grande destaque na antropologia recente, em obras de autores como Alfred Gell e Webb Keane. É em parte devido ao aumento do interesse nesse tema que a revitalização do conceito de fetiche ocorre. Alguns autores têm se voltado à área etnográfica na qual o termo surgiu, a África ocidental, preocupados com objetos mágico-religiosos que foram e são chamados de fetiches: os bo, vodu, suman, minkisi etc. Partindo deles, mas de maneira distintas, Jean Pouillon, Wyatt MacGaffey, Marc Augé e Albert de Surgy problematizam questões como a intencionalidade das coisas materiais; o papel dos objetos nos fluxos de eventos que os cercam; e as dicotomias entre pessoas e coisas, matéria e espírito, objeto e sujeito - que aparentemente não se sustentam no pensamento de populações "fetichistas". Márcio Goldman e Roger Sansi lidam com os mesmos temas, porém a partir de dados etnográficos sobre religiões afro-americanas, o que faz sentido posto que o fetiche não é um conceito ligado exclusivamente à África, mas ao complexo afro-europeu-americano que se formou no Atlântico desde a era das Grandes Navegações.
A polissemia que carrega o conceito de fetiche, ainda que o torne intrincado, difícil de trabalhar, permite múltiplas abordagens, permite tratar de um sem número de problemas relevantes para o pensamento antropológico. Perseguir a linha que esta "idéia-problema" atravessa, o movimento que desenha, foi o principal desafio para minha reflexão.
Texto: Rogério Brittes Wanderley Pires Imagem: altar de fetiches Vodu (Abomé, Benin, 2008) por Dominik Schwarz
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Representantes de diversas religiões se reuniram com acadêmicos no Seminário Cinema e Tolerância Religiosa: Uma Reflexão Contemporânea. O evento é uma parceria entre a PUC, a Globo Universidade, a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e aconteceu do dia 26 ao 30 de outubro.
O seminário, que teve o objetivo de debater a consciência da tolerância e a aproximação das diferenças no processo de construção da paz, apresentou três palestras, com os temas Tolerância Religiosa no Brasil, Religiões em Diálogo e Cinema e Tolerância Religiosa. Compuseram as mesas de debate, além dos representantes religiosos, teólogos e acadêmicos de várias universidades brasileiras.
Além dos debates, o encontro incluiu em sua programação uma mostra de filmes organizada pela PUC-Rio, com obras de João Moreira Salles, Geraldo Sarno e Eduardo Coutinho sobre a religiosidade no Brasil. Nos filmes Iaô (1976), de Sarno e Santo Forte (1977), de Coutinho foram retratadas as religiões de culto afro-brasileiro, enquanto Santa Cruz (2000), de João Moreira Salles, expõe o nascimento de uma igreja evangélica no subúrbio do Rio de Janeiro.
De acordo com a diretora do Departamento de Comunicação da universidade, Angeluccia Harbert, integrante da comissão organizadora do evento, o momento é propícia para a discussão do tema.
- Vários casos de intolerância vêm acontecendo e, por isso, queremos mostrar que a PUC-Rio, apesar de ter em seu nome a especificação católica, apóia os movimentos a favor da liberdade religiosa. Em nossa universidade, temos alunos de diversas crenças e estamos reafirmando nosso combate aos grupos extremistas - afirma. O cinema, além do entretenimento, ajuda a trazer à tona temas que demandam mais reflexão por parte da sociedade. E a intolerância religiosa é um dos assuntos que ainda carece de muita discussão apesar do destaque que vem recebendo recentemente. De maneira geral, os filmes desta mostra retratam as religiões por meio de seus cultos, simbolismos e, por alguns momentos, a partir da perspectiva de seus praticantes. Para o espectador é uma bela experiência para conhecer melhor determinadas religiões. É importante salientar que o encontro contou com uma grande presença de diversos representantes de tradições religiosas e estudantes na platéia. Se tratando de uma instituição de ensino que atinge futuros formadores de opinião, muitos dos religiosos que compunham as mesas ressaltaram que o ambiente era muito frutífero para dialogar sobre interreligiosidade e tolerância.
Texto: Marília Assad
Imagem: planetaeducacao.com.br
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A CONCORDATA BRASIL-SANTA SÉ: POLÍTICA, DIREITO E RELIGIÃO
Participantes: Carlos Roberto Jamil Cury - UFMG e PUC-MG Daniel Sarmento - UERJ Emerson Giumbelli - UFRJ Luiz Antônio Cunha - UFRJ - coordenador
Data: 27 de novembro de 2009 Hora: 14 às 17 horas Local: Decania do CFCH, Auditório do 2º. Andar Praia Vermelha, Rio de Janeiro Informações (21) 3873-5180
Organização: Observatório da Laicidade do Estado (IFCS-UFRJ)
LANÇADO O NOVO NÚMERO DA REVISTA DE ESTUDOS DA RELIGIÃO
A sessão temática da REVER foi organizada por Sylvio Fausto Gil Filho, Departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná.
Confiram: http://www.pucsp.br/rever/
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