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EDITORIAL
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Equipe:
Editor - Emerson Giumbelli
Composição - Paola Lins e Marília Assad
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Aldeia Sagrada 2009 acontece em agosto
Entre os dias 18 e 23 de agosto, o ISER será o cenário do mais plural evento interreligioso do Rio de Janeiro: a Aldeia Sagrada 2009 - compartilhando o sagrado, servindo ao mundo.
O evento tem como objetivo exemplificar e comunicar os princípios e valores universais das tradições espirituais através da convivência interreligiosa. Serão cinco dias de palestras, oficinas, cerimônias religiosas, exposições, performances artísticas e música sacra, organizadas por aproximadamente 30 tradições religiosas, que fazem parte do Movimento Inter-Religioso (MIR).
Realizada desde 2002, a Aldeia Sagrada, que é o principal evento anual do MIR, pretende ser ponto de encontro de tradições religiosas e pessoas comprometidas com a construção e consolidação da cultura de paz.
Identifica-se a (re)conciliação como pano de fundo para o entendimento da espiritualidade, bem como um caminho efetivo para o delineamento de ações pessoais, familiares, institucionais, que possam auxiliar na transformação de um mundo melhor, através de valores baseados principalmente na aceitação e respeito às diferenças.
Segundo Graça Nascimento, integrante da comissão executiva do MIR, constituem objetivos do encontro: • Exemplificar e comunicar os princípios e valores universais das Tradições Religiosas através da convivência inter-religiosa • Contribuir para o fortalecimento da sociedade civil, através da articulação de diferentes redes associadas às tradições religiosas que integram o MIR. Assim, pretende-se mostrar as melhores práticas que utilizam em prol da construção da Cultura de Paz, com foco especial em questões associadas ao ensino religioso, meio ambiente e direitos humanos • Incentivar o diálogo Inter-Religioso como forma de contrapor o fanatismo e o proselitismo religioso
Este ano, a Aldeia Sagrada está mais extensa, pois os organizadores preferiram dividir o evento em três momentos. O primeiro, do dia 18 ao 20 de agosto, será um momento de encontro entre os religiosos e a academia e serão discutidos temas como a relação da espiritualidade com a ciência, meio ambiente e gênero. As celebrações sagradas e atividades culturais estão reservadas para o segundo momento, nos dias 21 e 22. E o terceiro momento, que acontecerá no dia 23, é um convite para que as tradições e pessoas que participaram da Aldeia Sagrada 2009 realizem atividades em seus locais sagrados/devocionais que irradiem as ideias que fluíram ao longo do encontro.
Mais informações sobre a programação no site do ISER: www.iser.org.br
Texto: Marília Assad Imagem cedida pelo MIR
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Dinâmicas Contemporâneas do Fenômeno Religioso na Sociedade Brasileira
Dinâmicas Contemporâneas do Fenômeno Religioso na Sociedade Brasileira reúne análises sobre distintos aspectos do campo religioso atual. Tal perspectiva amplia as possibilidades de interlocução com outras áreas de reflexão e evidencia que a presença da religião, em seu sentido lato, não se limita às instituições e convenções. A religião emerge como foco analítico central e indissociável do contexto social mais amplo, seja em tensão ou diálogo com outros temas. Alguns nexos atravessam os debates propostos: institucionalização, desinstitucionalização, experiência religiosa, autonomia, trajetórias, entre outros. Os capítulos que compõem esta obra se caracterizam pela heterogeneidade de estilos e temas abordados. O fenômeno religioso é apresentado tanto em suas manifestações quanto a partir a ótica de entrecruzamentos com outras questões prementes da sociedade contemporânea.
O livro Dinâmicas Contemporâneas do Fenômeno Religioso na Sociedade Brasileira reúne análises sobre distintos aspectos do campo religioso atual, ampliando as possibilidades de interlocução. Tal abordagem possibilita ampliação dos limites estritamente acadêmicos, pois a publicação evidencia que a presença da religião, em sentido lato, não se restringe às instituições e convenções. Em tensão ou em diálogo com outros temas, a religião emerge, nas perspectivas dos autores, como foco analítico central e indissociável do contexto social mais amplo. Alguns nexos atravessam os debates propostos: institucionalização, desinstitucionalização, experiência religiosa, autonomia, trajetórias, entre outros.
O primeiro artigo, de Marcia Contins, apresenta uma análise que a autora amadurece há anos e suscita questões relevantes para o conjunto de estudos desta obra. A atualidade do texto "O caso da Pomba Gira", vastamente citado e agora publicado, situa-se na abordagem dos atores e discursos presentes no emblemático caso policial, explorado pela imprensa em 1979. A autora reflete sobre a situação, a partir da noção de "drama social" e das distintas concepções de pessoa emergentes, sobretudo a imagem feminina. O religioso que extrapola os limites institucionais, como no âmbito de instâncias médicas e jurídicas, constitui a base para as análises seguintes. Rachel Menezes analisa a proposta de assistência ao morrer promovida pela Medicina Paliativa, que envolve a noção de "boa morte". Sob a mesma perspectiva de entrelaçamentos entre religião e outras esferas sociais, como o direito e a ciência, Naara Luna apresenta o desenrolar da construção histórica da ideia de parentesco de sangue no Ocidente, indicando a relevância dos referenciais religioso, jurídico e científico para sua conformação moderna. Marcelo Natividade discorre sobre dois temas que, no ocidente, estão em constante e tensa inter-relação: sexualidade (no caso, a homossexualidade) e religião. A regulação da sexualidade pelas vias religiosa e familiar é expressa de modo tenso em trajetórias de homossexuais masculinos, que se convertem às igrejas evangélicas. Os dilemas são inerentes, mas há lugar para soluções: ser evangélico; homossexual; evangélico-homossexual.
Andréa Martins aborda a questão da "desregulação institucional", presente no catolicismo contemporâneo, tendo em vista a Teologia da Libertação e a Renovação Carismática Católica (RCC). Em seu argumento, os fiéis são percebidos como produtores de conhecimento e significados na relação estabelecida com a instituição religiosa. Assinala a existência de uma pluralidade de "modos de ser católico", o que também permite diferentes formas de lidar com os valores e práticas institucionais. O catolicismo também é abordado por Eliane Oliveira, desta feita em análise da Comunidade de Vida no Espírito Canção Nova, sobre "o final dos tempos". Este grupo da RCC se configura como um de seus mais expressivos movimentos. A autora problematiza as noções de "novo" e "velho", presentes no discurso cançãonovista, para lançar luz sobre seu projeto de construção de um "novo mundo".
Edlaine C. Gomes discute as transformações, combinações e conflitos que vêm ocorrendo tanto nas relações cotidianas urbanas quanto em disposições sociais e pessoais, diante do quadro de pluralismo religioso contemporâneo. A distribuição de doces na festa de São Cosme e São Damião, presente no catolicismo popular e nas religiões afro-brasileiras, se insere nesta dinâmica, ganhando novas roupagens. A análise conjunta de Edlaine C. Gomes, Marcelo T. Natividade e Rachel A. Menezes versa sobre questões em voga nos debates públicos atuais sobre parceria civil, aborto e eutanásia. Os valores religiosos emergem, com expressiva força, na tramitação de projetos de lei no âmbito do Poder Legislativo e em debates públicos, referentes aos temas abordados. As respostas religiosas tanto podem ser no sentido de flexibilização das normas como de seu recrudescimento.
Texto: Edlaine Gomes Imagem: Editora Ideias e Letras
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Audiência do Espírito Santo: música evangélica, indústria fonográfica e formação de celebridades no Brasil
Na tese Audiência do Espírito Santo: música evangélica, indústria fonográfica e formação de celebridades no Brasil, Robson de Paula aborda o sentido de missão religiosa que tem impulsionado as recentes transformações na organização da produção musical evangélica, bem com as negociações realizadas pelos diferentes atores sociais - religiosos e não religiosos - envolvidos no processo. Argumenta que esse nicho fonográfico possui uma estrutura organizacional similar a de outros estabelecidos no mercado brasileiro, pois conta com um rol de cantores, capacidade de formação de celebridades, empresas produtoras e distribuidoras. Contudo, por estar frequentemente associada às igrejas evangélicas, as empresas deste segmento estabelecem um modo de autoregulação estritamente vinculado a um projeto proselitista, destinado à ampliação da audiência evangélica.
No Brasil, no âmbito das Ciências Sociais e das Ciências da Religião ainda são poucas as pesquisas que tem como objetivo a investigação da produção industrial da música evangélica. Visando diminuir o déficit de estudos nesta área, ao longo da tese, apresentei as condições sociais e culturais que contribuíram para a constituição de um mercado fonográfico evangélico no Brasil, nos anos 90. Seguindo uma perspectiva teórica que busca compreender o fenômeno através de suas dinâmicas internas, fundamentalmente, procurei não só investigar a organização estrutural desse novo nicho do mercado fonográfico, como também as negociações de sentido, as tensões e as controvérsias, promovidas e experimentadas pelos atores sociais - cantores, pastores, ministérios de louvor, donos de gravadoras, produtores musicais etc. -, que circulam e integram o meio musical evangélico.
Em termos metodológicos, a análise desse objeto impôs a utilização de diferentes fontes e técnicas, na medida em que o seu recorte não se restringiu a uma localidade específica e nem tampouco sua ocorrência inicia-se no tempo presente. Por conta disso, no decorrer de quatro anos, acompanhei a trajetória de três cantores evangélicos e participei de inúmeros shows e feiras de artigos evangélicos, na cidade do Rio de Janeiro e em Salvador (BA). Também, com o intuito de entender a relação das gravadoras do setor com as igrejas, realizei observação participante em quatro denominações evangélicas: Ministério do Espírito Santo em Nome do Senhor Jesus Cristo - igreja fundada pela cantora Baby do Brasil, Ministério Apascentar de Nova Iguaçu, Comunidade Evangélica da Zona Sul e Comunidade Evangélica de Salvador (BA). Por fim, foi feito um levantamento das músicas e dos videoclipes evangélicos, sobretudo os que estão disponíveis na Internet. Ao todo foram catalogadas mais de 200 produções musicais, as quais possibilitaram uma análise mais apurada das transformações que ocorreram tanto nos temas como nas melodias das músicas, em decorrência da formação do "gospel brasileiro" - maneira como tem sido denominado o segmento musical evangélico.
A tese foi estruturada em quatro capítulos. Embora em cada um deles seja abordado um tema específico, o argumento central é retomado. Sob diferentes enfoques, a concepção de que o mercado fonográfico evangélico se organiza e se autoregula a partir da idéia de missão religiosa é enfatizada. Sendo assim, no primeiro capítulo, indiquei as circunstâncias sociais e religiosas que facilitaram o surgimento do mercado fonográfico evangélico. Com o objetivo de compreender as dinâmicas internas desse mercado, no segundo capítulo analisei a trajetória de três cantores evangélicos. Por meio do relato e da jornada de vida desses artistas, procurei entender as estratégias que eles estão utilizando para dar continuidade às suas carreiras em meio ao processo crescente de profissionalização da produção musical evangélica.
Além da observação da trajetória dos artistas que estão experimentando as novas condições de trabalho, a presente tese visou também o entendimento das relações comerciais e religiosas estabelecidas entre gravadoras e igrejas no mercado fonográfico evangélico. Com essa finalidade, no terceiro capítulo, apresentei um estudo de caso. Trata-se de uma gravadora que foi fundada por uma denominação evangélica. Refiro-me à Toque no Altar Music, uma empresa dirigida pela Igreja Ministério Apascentar de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Apontei, sobretudo, algumas controvérsias que passaram a existir com relação à concepção do "verdadeiro papel" dos cantores, pastores e donos de gravadoras.
Por fim, no quarto capítulo, apresentei os "estilos musicais evangélicos" que estão sendo amplamente produzidos pelas gravadoras desse segmento religioso nos dias atuais. Através da análise de um conjunto de elementos, procurei demonstrar como se institui a regulação tanto das letras como das melodias das músicas evangélicas. Embora haja uma abertura maior quanto aos ritmos percussivos do que já ocorreu no passado, é evidente um forte controle com relação aos temas tratados.
Considerando as argumentações de Robbins ("The Pentecostal globalization in the charismatic christianity". Annu. Rev. Anthropol, v.33, 2004) sobre a relação do cristianismo com o capitalismo, argumentei que, no Brasil, o mercado fonográfico evangélico, ao mesmo tempo em que se estrutura e se organiza nos moldes de outros setores empresariais, de maneira singular, encontra-se fortemente associado às denominações evangélicas e autoregulado a partir da idéia de missão religiosa.
Texto: Robson de Paula Imagem: http://www.diantedotrono.omeu.com.br/ (gravação do DVD Príncipe da Paz, do Ministério Diante do Trono).
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O movimento Diretriz Evangélica e a luta cristã pela justiça
Um livro que ainda está para ser escrito sobre a história da ação social e a luta dos evangélicos no Brasil por justiça, certamente retratará a contribuição da Diretriz Evangélica, movimento liderado basicamente por batistas, mas com amplas relações com outros grupos evangélicos e a sociedade brasileira.
O movimento já era atuante no final dos anos 1940, antes de entidades e movimentos reconhecidos, como a Rede Evangélica Nacional de Ação Social (Renas), a extinta Associação Evangélica Brasileira (AEvB), a Visão Nacional de Evangelização (Vinde), o Pacto de Lausanne e a Missão Integral da Igreja, a Teologia da Libertação e o Setor de Responsabilidade Social da Confederação Evangélica do Brasil darem suas contribuições sociais.
Organizado a partir do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, o movimento teve entre seus pioneiros David Malta Nascimento, Lauro Bretones e Himain Lacerda, que lançaram em janeiro de 1949 o primeiro número do jornal "Diretriz Evangélica".
Entre os pontos do decálogo que identificava e orientava as ações do grupo, destacam-se: 1. Cremos no Evangelho de Cristo, o programa do reino de Deus, como única solução para os problemas individuais e coletivos; 2. Cremos na dignidade da pessoa humana, por isso que dentro dos postulados do cristianismo condenamos todo e qualquer sistema político-social e religioso que a negue; 3. Cremos que o cristianismo, por ser uma mensagem integral, tem um duplo objetivo: regenerar o indivíduo, salvando-lhe a alma, e santificar as relações sociais do homem.
Com base nestes princípios Diretriz Evangélica manteve várias atividades como publicação do jornal, programa radiofônico, colunas em "O Jornal Batista" e outros veículos de informação, como a revista paulista "Unitas", de direção presbiteriana.
Em consonância com as ações e princípios do movimento, as igrejas pastoreadas por seus líderes, e outras, como a de Benilton Carlos Bezerra e a de Hélcio da Silva Lessa, que se associaram ao grupo, estabeleceram atividades de assistência e serviço social, sempre visando as transformações estruturais.
No início da década de 60 o movimento publicou "Ação Social Cristã", um livro corajoso e pioneiro, de autoria do pastor Hélcio Lessa, cuja capa trazia a foto de uma típica favela carioca. Este livro tornou-se uma referência por, entre outras contribuições, oferecer uma conceituação distinta fundamental do que seja assistência, serviço e ação social.
Por causa dessa consciência e tomada de posição, os líderes da Diretriz Evangélica sofreram pressões e críticas, tanto do meio batista e evangélico, quanto de setores conservadores da sociedade. Após o Golpe de 64 o movimento começou a se arrefecer, por razões de intolerância e perseguição no país. Taxado de comunista -- uma acusação temerária para a época -- o grupo ainda resistiu e manteve algumas ações, mas principalmente dentro de suas igrejas.
No entanto, seus sonhos e contribuições por um evangelho integral se mantiveram e frutificaram. Exemplo disso foi o recente encontro realizado em 16 de junho de 2009, no Seminário Batista do Sul, no Rio de Janeiro: uma mesa de reflexão sobre as ações da Diretriz Evangélica e a celebração de um culto a Deus em que foram também homenageados alguns remanescentes, como o pastor David Malta Nascimento, que completou 90 anos. Na ocasião foram distribuídos um boletim especial com textos do movimento e o livro "Ação Social Cristã", doado pela família do pastor Hélcio Lessa, morto em 5 de junho de 2009, com quase 83 anos.
Ao relembrar movimentos como este, nossa geração é outra vez desafiada a fazer mais e melhor pela justiça do reino de Deus. Afinal, as diretrizes evangélicas para esta ação são dadas pela própria Palavra de Deus, que exige eficaz cumprimento de todos quantos se identificam como seguidores de Cristo.
Nota Os documentos citados e o livro "Ação Social Cristã" estão disponíveis em www.ftlrj.blogspot.com e www.ftl.org.br
Texto publicado originalmente na revista Ultimato, N° 319, por Clemir Fernandes Imagem: Oliverartelucas
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